Cadeira nº 39: Manoel Joaquim de Macedo

 

Ao saudar o ilustríssimo Sr. Presidente da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, o Professor Luiz de Melo Sobrinho, eu cumprimento os demais membros desta Academia, para a qual eu me sinto honrada em ingressar, as autoridades presentes, familiares e amigos queridos cujas vivências se entrelaçam as minhas, constituindo-me em espírito, demais convidados presentes. “Eu faço arte para que algo em mim se transforme”, já nos dizia Guimarães Rosa. A arte nos instiga, nos liberta, nos faz ver o mundo por outras perspectivas. Augusto dos Anjos, em “Monólogo de uma Sombra”, por sua, dizia: “Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, Abranda as rochas rígidas, torna água Todo o fogo telúrico profundo E reduz, sem que, entanto, a desintegre, À condição de uma planície alegre, A aspereza orográfica do mundo!” Se, neste 21 de novembro, eu ingresso nesta Academia, devo o meu primeiro agradecimento às ARTES e, por extensão, o devo a cada mestre presente em minha formação que, como nos relembra Cecília Meireles, no Cântico XXIV, “Foram sem número/ Sem nome/ De todos os tempos”. E continuam fazendo-me dia-a-dia: os de ontem, “Os de hoje, os de amanhã… e as coisas silenciosas”. Assim, meu agradecimento alcança minha madrinha e padrinho nesta Academia: Elizabeth Fontes e José Gabriel Barbosa, que indicaram o meu nome, que foi posteriormente acolhido por unanimidade pelos demais acadêmicos. E com a consciência de que “A arte é ela própria uma realidade social”. E de que “A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social”, conforme nos revela Ernest Ficher (1899-1972), que eu, Mara Coelho Maximiano, neste dia que precede ao da “Consciência Negra” e antecede o “Dia do Músico”, partilho com os presentes um olhar biográfico sobre o patrono da Cadeira 39, o violinista, compositor e maestro, Manoel Joaquim de Macedo. E assim o início:

PROTOFONIA

Do grego, “proto”: à frente ; “phoné”: som. Prelúdio que serve de abertura a uma composição musical: a opera de toda uma vida. “Quem estima a arte, mesmo sem sabê-la, não pode vir a esta cidade sem procurar conhecer o maestro Macedo. O valor deste artista e situação em que tem vivido (em Minas) dão uma ideia precisa da capacidade estética do indivíduo e da inferioridade estética do meio. Macedo é um tímido, e os tímidos são uma raça condenada em nosso país. De nada lhe valeu ter cursado, em sua mocidade, uma das primeiras escolas musicais da Europa, no seu tempo, e nela, conquistado a mais alta distinção, merecendo o aplauso e a estima dos seus mestres. Alma reta e simples, sacerdote apaixonado de sua arte, Macedo acreditou que, trabalhando e pondo no trabalho toda a sinceridade do seu talento e de sua inspiração, acabaria por chegar lentamente, mas honestamente, à altura de onde pudesse ser ouvido, compreendido e estimado por seus compatriotas, como o fora pelos mestre. Ele não contava, porém, com a rebeldia e com a inferioridade do meio artístico de seus pais, onde só pelo merecimento, ninguém vence e onde a exígua e apagada vida intelectual se condensa num único foco, cuja luz não estende os limites do largo de São Francisco e da rua Direita. Mas, mesmo na capital do país, qual é a sorte de um artista de valor, quais são os elementos para a formação de uma dessas reputações universais? Não é de admirar, pois, que o maestro Macedo, colocado fora da órbita do nosso mesquinho sistema artístico, não tenha a notoriedade que de sobra merece. Libertas quase sera tamen foi a divisa dos rebelados que tiveram por chefe o herói de sua opera (TIRADENTES). A glória, como a liberdade, vem às vezes tarde, mas vem sempre. A Glória do maestro Macedo virá um pouco tarde, mas não tarde demais, pois, apesar dos seus quase sessenta anos, ainda se encontra bastante forte e com a fronte bastante erecta para suportar os pesos dos louros”. ANTÔNIO SALLES, Jornal o O PHAROL, 27 de fevereiro de 1909. Conhecer o homem com os olhos de sua época, este é o grande desafio daqueles que percorrem os caminhos da história e, por isso, escolhi iniciar a apresentação do meu patrono, ao som da Protofonia, isto é, da abertura de sua opera, e com excertos do artigo de um contemporâneo seu. Passemos ao

PRIMEIRO ATO

Manoel Joaquim de Macedo Júnior nasceu em 25 de novembro, de 1845, em Cantagalo, RJ, mas, excetuando-se o tempo em que viveu na Europa, foi em solo mineiro que traçou sua vida e compôs sua obra. Era o filho mais novo de Manoel Joaquim de Macedo, fazendeiro, e Catharina Rosa de Jesus. Demonstrando, desde cedo, grande talento e inclinação para a música, Macedo é enviado à Bélgica, durante sua adolescência, para estudar com grandes ícones da música erudita, a exemplo dos violonistas: Vieuxtemps, Bériot, dentre outros. Estuda harmonia, contraponto, recebendo, inclusive, indicação para tornar-se primeiro violinista no Convent Garden, em Londres.

SEGUNDO ATO

Manoel Joaquim de Macedo retorna ao Brasil em 1871. Em 1879, após escrever ao imperador, solicitando-lhe a vaga de mestre da Capela Imperial do Rio, é nomeado para o cargo e destituído dois anos após, em 1881, sem nunca tomar posse. Acredita-se que isto se deveu à pouca identificação de Macedo com a composição estritamente religiosa. Outras hipóteses seriam sua dedicação à espirituosa comédia-Opereta “Antonica da Silva”, com libreto de seu tio: Manuel Joaquim de Macedo ou, mesmo, problemas relacionados à saúde, que o impeliram a deixar a corte e buscar nos ares. Em 1883, passa a residir em Leopoldina/MG. Um breve olhar sobre o panorama político e cultural da época, nos revela que, nas imediações do Rio de Janeiro, Leopoldina era uma cidade em plena efervescência. Por volta de 1870, a cafeicultura já estava consolidada na região. E, em conjunto com a cafeicultura, havia outras atividades pastoris ligadas à produção de gêneros de consumo pessoal, que impulsionavam o comércio. No que concerne à produção de gêneros alimentícios, Leopoldina, cuja extensão territorial, àquela época, diferia da atual, formava, juntamente com Muriaé e Mar de Espanha, importantes rotas comerciais com a província do Rio de Janeiro e, especial, com o município cafeicultor de Cantagalo, para onde eram direcionados diversos gêneros. Leopoldina possuía a segunda maior população de escravos e, sendo uma cidade em plena expansão, era natural que, para cá, se dirigissem professores. Uma vez que a música era parte integrante da educação das moças da sociedade. Era de se acreditar que, nestas terras, Macedo encontrasse condições para exercer sua musicalidade e trabalhar suas composições. Em julho de 1886, na Paróquia de São Sebastião, casou-se com Cecília Antunes Pereira, filha de fazendeiros, tendo sido, provavelmente, sua aluna de piano. A ela dedica o seu sexto concerto para violino e orquestra. Em 1888, nasce o filho Manoel Joaquim de Macedo Neto e, em 1889, Catarina de Macedo. Mas o que nos revela a historiografia é que, devido a traços de sua personalidade, em especial a modéstia e o retraimento, o talento do maestro não foi devidamente valorizado, no município de Leopoldina/MG, permanecendo o músico pobre, a lutar com as maiores dificuldades, lecionando piano, violino e canto, de fazenda em fazenda, ou na área central, quando não realizava concertos de música vocal e instrumental. Suas aulas eram destinadas a moças da elite leopoldinense e outros alunos, mas a predileção do maestro era pela composição. No início do século XX, Mario de Freitas, engenheiro proeminentes na sociedade leopoldinense, escreveu, na Gazeta de Leopoldina, que o Maestro foi professor de sua mãe e a considerava a melhor de suas alunas, dedicando-lhe uma de suas composições intitulada Meditation opus 131 (A Emília Levasseur). Esta composição integra o “Álbum Pour Piano_ Onze Marceau”, com peças para piano e duo com violino. Mas, se em Leopoldina, o maestro não encontrou imediato reconhecimento, foi aqui que estabeleceu contato mais direto com o então juiz e escritor Augusto de Lima, também patrono de uma das cadeiras desta academia. Em matéria publicada no jornal O Paiz, em 25 de abril de 1826, Augusto de Lima traça um perfil em homenagem a Macedo e afirma que o conheceu em Leopoldina, lecionando piano e violino: “Ali Macedo organizou uma orquestra com músicos locais, que chegaram a executar músicas de fôlego, como um arranjo com motivos de Tannhauser, que tive oportunidade de ouvir em um concerto que, naquela cidade (Leopoldina) se organizou em prol das vítimas do terremoto da Andaluzia”, completa ele. Augusto de Lima relembra, ainda, que, após um concerto, em Ouro Preto, em fins do século XIX, Macedo lhe pediu um motivo literário para uma partitura tendo como tema a Inconfidência Mineira.

TERCEIRO ATO

Augusto de Lima achou a proposta digna de uma verdadeira Trama Musical, escrevendo assim um liberto em quatro atos que, menos de um ano após, já estava musicado em suas cenas principais. Neste período, Macedo teve como verdadeiro mecenas, o Dr Camilo Ferreira da Fonseca, que lhe forneceu condições de dedicar- se plenamente a sua composição. A partir daquele momento, estaria sendo escrita a música com a qual Manoel Joaquim de Macedo imprimiria seu nome na história: a ópera TIRADENTES. Para realizar a orquestração, foi subsidiado pelo governo de Minas, após solicitar a intervenção de Augusto de Lima, e pela União, partindo, em 1909, para a Europa, mais precisamente, Bruxelas, onde a expertise nesta área merecia destaque. Ao retornar, a opera estava concluída. Em um momento em que ainda não existia uma música erudita nacional e todos os olhares se voltavam para as composições europeias, o Maestro Macedo transfere este olhar para uma temática brasileira, a opera TIRADENTES, cuja estreia de algumas partes, “A Protofonia” e pequenos trechos, acontece em solo europeu, durante a Exposição Internacional de Bruxelas, de 1910, na presença do monarca belga Alberto ll. Momento em que é condecorado, por parte da colônia brasileira, em Bruxelas, com um busto em bronze, obra do escultor Rixjens, laureado da Real Academia de Belas Artes de Liége. Contrariando à tendência em voga, Macedo soube associar a um sentimento brasileiro, uma temática nacional.

QUARTO ATO

Em 1922, retorna ao país. Havia um veemente interesse por parte da elite política em apresentar a opera em solo brasileiro, pois, assim, coincidiam tanto o interesse estético-cultural sobre a obra de Manoel Joaquim de Macedo, quanto o interesse político de valorização da figura de Tiradentes_ elevado da condição de traidor, durante o império, a de herói, na República nascente. O então presidente, Arthur Bernardes, assim como o Dr Alaor Prata, prefeito do Distrito Federal, se empenharam vivamente pela montagem da opera, no Teatro Municipal, mas, como nos revelava Augusto de Lima, “grave enfermidade do maestro impediu que se colimassem esses desejos. E continua: “Ninguém mais do que eu lamentou ter sido perdida a excelente ocasião de glorificar-se, em vida, o maestro, porque conheço numeroso trechos da partitura, antes de orquestrada, e possuo mesmo alguns de uma beleza peregrina, como inspiração e como arte”. Joaquim Manoel de Macedo falece em 02 de dezembro de, 1925, em Sereno, distrito de Cataguases, dias após completar 80 anos. Faleceu em casa de amigos, em uma fazenda, estando ao seu lado, na hora derradeira a esposa, sua querida esposa e os quatro compactos volumes da sua opera. “Sinfonia dolorida extraída de sua alma” (Alberto Deodato, O PAIZ, 26/04/1926).

GRÃ-FINALE

Manoel Joaquim de Macedo teria escrito, provavelmente, mais de 300 obras, sendo que a grande maioria se perdeu. Acredita-se que algumas ficaram na Europa, em mãos de sua filha Filula, pianista, para serem divulgadas. Os originais da ópera Tiradentes foram redescobertos, acidentalmente, em 1986, na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. Sendo realizada, em 1992, uma montagem em versão reduzida, em forma de concerto, com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. “Macedo era uma alma essencialmente brasileira. O drama musical Tiradentes, que o consumiu, no último quartel de sua vida, encerra, por assim dizer, todas as energias e todos os voos de inspiração do inolvidável compositor”. (Augusto de Lima, Congresso Nacional, 08/12/1925_ 6499) Mas temos a certeza que a sua figura brilhará ainda mais, sejam com os louros advindos de sua nomeação para patrono da cadeira 21, na Academia Brasileira de Música, por indicação do maestro Villa-Lobos, em meados do século passado. Sejam com os louros recebidos aqui em Leopoldina, cidade tão relevante em sua vida, advindos da escolha de seu nome como patrono da cadeira 39 que, na Academia Leopoldinense de Letras e Artes, eu tenho orgulho de representar.


Resumo biográfico publicado na Revista da ALLA 2024

Manoel Joaquim de Macedo nasceu em Cantagalo/RJ, em 25/11/1845. Faleceu na fazenda Santa Maria, distrito de Sereno, Cataguases/MG, em 02/12/1925. Autor da “Ópera Tiradentes”, cujo libreto foi escrito pelo também patrono da ALLA, Augusto de Lima, ninguém sabe ao certo por que o maestro veio parar em Leopoldina/MG, uma vez que sua sólida formação musical, tendo estudado por mais de uma década na Europa, o habilitava a ganhar a vida com sua arte em qualquer grande centro do mundo de sua época. Esta tese é corroborada pelo fato de ter sido nomeado Mestre da Capela Imperial, por D. Pedro II, pouco antes de se mudar para Leopoldina/MG, o que ocorreu em 1883.

Macedo era sobrinho do autor de A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo, com quem compôs a opereta cômica “Antonica da Silva”, que alcançou razoável sucesso na Corte, em 1880, outro motivo para que mantivesse a carreira por lá.

Contudo, o violinista virtuose, filho do fazendeiro Manoel Joaquim de Macedo e de Catharina Rosa de Jesus e que estudou com os melhores de sua época, mudou-se para perto dos ricos fazendeiros de café do interior mineiro, onde dava “lições de piano, violino e canto, de fazenda em fazenda ou na cidade, quando não realizava concertos de música vocal e instrumental” (FRESCA, 2014, p. 96) e até montou “uma orquestra, com a qual chegara a executar peças de grande fôlego, inclusive um magnífico arranjo de Tanhäuser, que, pela primeira vez, pôs em contato o gênio de Bayreut com Augusto de Lima” (idem, p. 98).

Uma de suas alunas, a predileta, por sinal, era D. Milica, ou Emília Levasseur Rocha, que habitava o sobrado que existia na esquina da Tiradentes com Sete de Setembro, atual praça do Urubu, e que mereceu dedicatória em uma de suas composições para piano intitulada “Meditation”.

Também foi em Leopoldina/MG que Macedo se casou, em 03/07/1886, com a pianista Cecília Antunes Pereira, filha do fazendeiro Francisco Antunes Pereira e de Maria José da Conceição, que eram tios do escritor Luiz Eugênio Botelho, e onde teve seus dois filhos: Catharina e Manoel Joaquim de Macedo Neto.

Logo depois de se mudar para Barbacena/MG, Macedo foi dar um concerto em Ouro Preto/MG, em 1896, então capital do Estado, onde se reencontrou com Augusto de Lima, a quem sugeriu uma parceria para uma obra em homenagem ao novo herói da incipiente República. Em um ano estava pronto o libreto da “Ópera Tiradentes”. A música, porém, demorou mais de uma década para ficar pronta, tendo o maestro retornado à Europa, com patrocínio do Estado de Minas, para terminar a composição, cujo manuscrito original possui 1.197 páginas e se encontra hoje na biblioteca da UFMG. Devido a uma série de fatores, entre eles a Primeira Guerra Mundial neste interregno, os autores nunca puderam levar aos palcos sua obra prima, que só foi apresentada pela primeira vez, em versão de Oratório, em 1992, no Palácio das Artes de Belo Horizonte/mg.

Macedo morreu pobre, em uma fazenda da família da esposa. Está sepultado em Sereno/MG, e foi quase esquecido, apesar de ser patrono da Cadeira 21 da Academia Brasileira de Música e agora, também, da Cadeira 40 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes. De sua vasta obra, de cerca de 300 peças, pouca coisa restou: além da ópera, um poema sinfônico intitulado “A Floriano Peixoto a Pátria” op. 160; uma sonata para piano op. 158; o álbum com onze peças para piano editado pela Bevilacqua e o sexto concerto para violino e orquestra (dedicado à esposa), na sua redução para violino e piano. A razão é que os originais ficaram com a filha “Filuta” na Europa, para divulgação, e daí não se teve mais notícias.

Fontes de pesquisa:

FREITAS, Mário de. Leopoldina do meu tempo. Belo Horizonte: Gráfica Bandeirantes Ltda., 1984.

FRÉSCA, Camila Ventura. Luz e sombra: música e política na trajetória de Manoel Joaquim de Macedo (1845-1925). Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2014.

REIS, Adonhiran Bernard de Almeida. Edição do sexto concerto para violino e orquestra de Manoel Joaquim de Macedo. Rio de Janeiro, dissertação de mestrado, UFRJ, 2012.

 




 

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