A ACADEMIA
Akadémia era um bosque de oliveiras próximo a Atenas, frequentado pelo herói Academus e, posteriormente utilizado por Platão ao ensino da filosofia a adultos letrados.
Firmou-se o termo, no curso da história, com o propósito de denominar sociedades de sábios, filósofos, cientistas e, no nosso caso, escritores e artistas.
Um conceito que vai além dos formalismos, expoentes necessários das intricadas relações humanas, mas que buscou compreender e explicar a existência temporal de uma determinada instituição educativa.
A academia, cujo termo transcende seu caráter original, foi integrada contextualmente em um sistema educativo. Implicada a um universo de gradual evolução humana, o que lhe outorga um sentido relevantemente social.
E de história nós também vivemos. Afinal, um homem sem memória perde de si mesmo a maior parte de sua vida, pois é justamente o que ficou atrás que mais tempo ocupa o sentido de existência.
E nessa multidimensionalidade que alcança a palavra – academia – se estende aos nossos arredores afetivos e nos dirige os olhos da emoção àquela figura monumental que, de tão agregada se tornou à nossa paisagem, parece que existe além da própria cidade.
O símbolo se presta a dar imagem ao signo representativo de algo importante, que faz referência e explicita a relevância daquilo que projeta um fragmento, individual ou coletivo, do que se escolhe como referência.
E, de todos os nossos símbolos, há que se dar, por força de sua opulência e importância, a condição de máxima referência ao Ginásio Leopoldinense.
Todo o seu significado se expressa nas formas físicas de seu prédio, dotado de arquitetura imponente, de escancarada monumentalidade e cujo propósito sempre foi o de impulsionar a ideia de formação de grande parte dos nossos conterrâneos e amigos.
“(…) e tão majestoso é ele que muita gente pensa que Leopoldina é apenas o Ginásio”, disse Barroso Júnior em 1943.
O LEOPOLDINENSE
Os regionalismos são condições interessantes. Indicam uma “personalidade coletiva”, um espírito de corpo que faz com que determinada pessoa se identifique pelo pertencimento, e que a coletividade se individualize pela soma das similaridades de todos os pertencentes.
E o Leopoldinense é um povo orgulhoso, que vez ou outra se ressente de um passado que, idealizado ou real, impactou nas ausências e carências recentes. Mas que, pelo esforço conjunto, vem sendo mitigadas como fruto de trabalho consciente e parcimonioso.
Houve, e ainda há, por parte dos que não são originários dessa terra, a percepção de que aqui também se colhem bons frutos.
Assim talvez tenha imaginado o Professor Alziro de Azevedo Carvalho.
Nasceu em 28 de fevereiro de 1910, na fazenda Santa Catarina, situada na Vila de São Miguel, Guaçui, Estado do Espírito Santo.
Alziro cursou o primário em escola particular, localizada nas vizinhanças da fazenda onde nascera, e também em escolas públicas e particulares da Vila de São Miguel.
Nos anos de 1923 e 1924 frequentou Ginásio de Alegre, também no estado do Espírito Santo.
Um ano depois, em 1925, matricula-se no Ginásio São Joaquim, da Congregação de Dom Bosco, em Lorena, Estado de São Paulo.
Após completar 15 anos, Alziro chega à Leopoldina com fins de se matricular no segundo ano Ginasial e nos anos seguintes faz o curso Comercial.
Em 1930 retorna ao seu estado natal e inicia o magistério de Inglês e Contabilidade no Liceu Pedro Palácios, em Cachoeiro do Itapemirim.
Mas eis que, no ano de 1931, aos 21 anos de idade, é convidado pelo então diretor do Ginásio Leopoldinense, o Professor Carlindo Alvarenga Mayrinck, para aqui, em nossa cidade, ministrar aulas de Inglês e Contabilidade.
Mais ainda, o agora Professor Alziro também passa a exercer a função de enfermeiro naquela instituição de ensino.
Como recompensa ao seu empenho, assume a chefia de disciplina e, posteriormente, galga a Vice-Diretoria da Escola.
Então como vice-diretor, em 1934 funda a Liga Esportiva do Ginásio Leopoldinense, cujo hino revela o brocardo "Mens Sana in Corpore Sano".
Já com as raízes fincadas nesse lugar que, de fato tornou-se o lar por afinidade, em 1937 casa-se com Anita Iennaco, vindo aqui a estabelecer, de forma definitiva, o embrião de uma nova família leopoldinense.
Então, chega o ano de 1943, quando o Professor Alziro assume a direção do Colégio Leopoldinense.
Durante sua gestão, o agora Diretor, transformou o curso Comercial Básico, constituído de curso Propedêutico e curso Auxiliar de Comércio, funcionando anexo ao Colégio Leopoldinense, em Escola Técnica de Comércio, independente e garantindo aos seus egressos o diploma de Técnico em Contabilidade. Além dos cursos Clássico e Científico.
Digno de referência, por certo, foi o momento em que, como diretor do Colégio Leopoldinense, promoveu sua transição de instituição privada, inserindo-a na rede pública de ensino, com a intermediação da Igreja Católica à época.
E como marco derradeiro de seu vínculo com a Instituição, em 1994 como presidente de honra da Associação dos Antigos Alunos do Ginásio Leopoldinense, é signatário de ofício endereçado à Secretária de Cultura do Estado de Minas Gerais buscando a proteção definitiva do prédio pelo seu tombamento. O que de fato vem a ocorrer dois anos depois.
Enveredando pela vida pública, em sua atuação política, foi vereador por 8 anos, exerceu o cargo de vice-prefeito e também Presidente de Honra do PTB em Leopoldina.
Alziro de Azevedo Carvalho, tio-avô por afinidade, empresário por quatro décadas e, acima de tudo, professor, foi por mim escolhido como Patrono no momento em que ocupo a cadeira de número 33 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.
E a justificativa da escolha se consolida, como não poderia deixar de ser, pelo caráter simbólico que sua figura passa a representar neste e em outros contextos.
Embora de forma breve, a convivência com Tio Alziro ainda é capaz de trazer à memória fatos que avivam o sentimento nostálgico, que evoca uma época onde o tempo corria com muito menos pressa.
Abro parêntesis para mencionar que, das conversas com a Tia Anita, surgiu o interesse nas origens da família. O que resultou na valiosa publicação do Rodrigo que conta, com precisão, grande parte do caminho percorrido pelos nossos antepassados até os dias atuais.
Uma casa acolhedora, com quintal espaçoso. A criação de galos exóticos que despertavam nossa curiosidade. E, inclusive, a lembrança dos meus aniversários, que sempre rendiam como presente uma caixa de guaraná Antárctica.
Alziro de Azevedo Carvalho, como educador, também simboliza nessa ocasião a importância que esses obstinados servidores da sociedade merecem ter reconhecida.
Pessoas que, de forma inconcebível, vem sendo alvo de manifestações injuriosas, que, queiramos todos nós, passem a ocupar somente o espaço necessário à certeza de que devem ser combatidas atenta e energicamente.
E, nesse momento, aproveito o espaço para prestar homenagens, na figura do então Patrono da Cadeira 33, a todos aqueles que dedicaram e dedicam insubstituível tempo de sua existência ao propósito de um Brasil mais justo e digno.
Aos profissionais que se empenham na nobre arte do magistério que, tal qual o sacerdócio, só é capaz de elevar os espíritos dos jovens se praticada com honestidade intelectual e pureza de caráter.
Professor Alziro não é filho natural de Leopoldina. Mas aqui encontrou solo fértil para seu crescimento. Contribuiu cultural, econômica e politicamente para o desenvolvimento da cidade e em nossa terra permaneceu até seus últimos dias, aos 86 anos.
Casou-se e constituiu família, alicerçando de maneira definitiva o seu propósito de fazer parte dessa história que encanta não só seus expectadores, mas também quem dela é personagem.
AS LETRAS
Nas letras, com a licença àqueles que delas fazem sua matéria-prima, ninguém que por aqui percorre pode se furtar das honras devidas a Augusto dos Anjos.
Mas de suas letras não pretendo falar.
Por curioso, quando de sua chegada à cidade para ocupar a direção do Grupo Escolar, em 1914, houve manifestação de protesto do então redator do jornal local “O Novo Movimento”, que considerou a contratação como uma “injustiça que feria o regulamento da instrução”.
Disse o redator, cujo nome não fui capaz de apurar:
“(…) Não podemos nos calar ante a clamorosa injustiça do governo, preferindo para nomeação um cidadão inteiramente alheio ao magistério mineiro (...)”
Mas, superada a indignação manifestada e, supostamente em razão de sua morte precoce cuja herança é representada na publicação do EU, hoje Augusto dos Anjos é, também, um celebrado leopoldinense.
O Poeta, assim como todos que perseguem a sabedoria, forma fileira opondo resistência heroica ao obscurantismo que teimou em se fazer de forte em tempos recentes.
Mas não há escuridão que seja invencível quando confrontada com a honestidade e boa-fé que os filhos das ciências, da literatura e da cultura.
AS ARTES
“Toda arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores”.
Com esse aforismo, Nietzsche propõe, numa interpretação pessoal e limitada, que a arte guarnece as defesas necessárias contra males dos mais diversos.
Como remédio da vida, a arte deve ser importante ferramenta de resistência contra a desinformação, a ignorância e a estética obscurantista.
Ao se tornar a expressão do espírito de um povo, de uma época, as artes atuam como instrumentos de sua dignidade, numa manifestação audiovisual de sentimentos cujos sentidos humanos captam sob a ótica da emoção.
Impossível contestar a grandeza, e tento afastar aqui determinismos de ordem cultural, da Ária da Quarta Corda, com a qual Bach eleva todos os espíritos a um ser superior.
Tampouco é equivocado equiparar ao clássico barroco a Súplica Cearense, quando Luiz Gonzaga pede, cantando em oração, que o divino interceda pelo povo que sofre com a seca no sertão nordestino.
Assim como a Plebe Rude, a Legião Urbana e a juventude oitentista se somou à Tropicalha na insurgência contra a repressão vigente no Brasil, Pablo Picasso pintou a Guernica. Obra emblemática que, como um apelo ao antimilitarismo mundial, ecoa num grito de revolta aos horrores da Guerra Civil Espanhola.
Ariano Suassuna e Garcia Marquez, cada qual no seu canto da América Latina, levantam suas cidades, naturezas e culturas num movimento de resistência anti-imperialista, contando as belezas tropicais e incitando a autodeterminação dos nossos povos.
É essa a síntese das impressões e certezas que me convêm apontar sobre quem, de forma generosa, me acolheu entre os seus.
E que todos nós, nas nossas diferenças e individualidades, continuemos buscando adquirir e oferecer o quanto possível, em forma de Letras e Artes, a beleza, a ciência e o progresso ao povo de Leopoldina.
Reforço meus agradecimentos a todos os presentes e aos membros da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.

Professor
Alziro de Azevedo Carvalho nasceu em fevereiro de 1910, na fazenda Santa
Catarina, situada na Vila de São Miguel, hoje município de Guaçuí/ES. Na sua
infância, cursou o primário em escola particular, localizada nas vizinhanças da
fazenda onde nascera e, também, em escolas públicas e particulares da Vila de
São Miguel. Mais adiante, nos anos de 1923 e 1924, frequentou o Ginásio de
Alegre, também no estado do Espírito Santo. Um ano depois, em 1925,
matricula-se no Ginásio São Joaquim, da Congregação de Dom Bosco, em Lorena/SP.
Sua
história como filho afetivo da terra começa quando, após completar 15 anos,
chega a Leopoldina/MG com fins de se matricular no segundo ano ginasial e, nos
anos seguintes, faz o curso Comercial, aqui permanecendo, a princípio, por um
breve período.
No
ano de 1930, retorna ao seu estado natal e inicia o magistério de Inglês e
Contabilidade no Liceu Pedro Palácios, na cidade de Cachoeiro do Itapemirim/ES.
Mas eis que, no ano de 1931, aos 21 anos de idade, é convidado, pelo então
diretor do Ginásio Leopoldinense, o Professor Carlindo Alvarenga Mayrinck, para
aqui, em nossa cidade, ministrar aulas de Inglês e Contabilidade.
Diante
da inequívoca demonstração de seu empenho como agente de transformação social,
o agora Professor Alziro passa a exercer também a função de enfermeiro naquela
instituição de ensino. Como recompensa pelo resultado de seu trabalho, assume a
chefia de disciplina e, posteriormente, galga a Vice-Diretoria da Escola
símbolo da “Athenas da Mata”, quando funda, em 1934, a Liga Esportiva do
Ginásio Leopoldinense, cujo hino revela o brocardo Mens Sana in Corpore Sano.
Já
com as raízes fincadas neste lugar que, de fato, tornou-se seu novo lar por
afinidade, em 1937, casa-se com Anita Iennaco, vindo aqui a estabelecer, de
forma definitiva, o embrião de uma nova família leopoldinense.
Chega,
então, o ano de 1943, quando o Professor Alziro assume, com méritos, a direção
do Colégio Leopoldinense. Durante sua gestão, transformou o curso Comercial
Básico - constituído de curso Propedêutico e curso Auxiliar de Comércio,
funcionando anexo ao Colégio Leopoldinense - em Escola Técnica de Comércio,
independente e garantindo aos seus egressos o diploma de Técnico em
Contabilidade, além dos cursos Clássico e Científico.
Digno
de referência, por certo, foi o momento em que, como diretor do Colégio
Leopoldinense, promoveu sua transição de instituição privada para a rede
pública de ensino, com a intermediação da Igreja Católica à época. E, como
marco derradeiro de seu vínculo com a Instituição, em 1994, como presidente de
honra da Associação dos Antigos Alunos do Ginásio Leopoldinense, é signatário
de ofício endereçado à Secretária de Cultura do Estado de Minas Gerais,
buscando a proteção definitiva do prédio pelo seu tombamento, o que vem a
ocorrer dois anos depois.
Enveredando pela vida pública, em sua bem-sucedida atuação
política local, foi vereador por 8 anos, exerceu o cargo de vice-prefeito e,
também, Presidente de Honra do PTB em Leopoldina.
A
posição de Alziro de Azevedo Carvalho como Patrono da Cadeira de número 33 da
Academia Leopoldinense de Letras e Artes, como não poderia deixar de ser, se dá
pelo caráter simbólico que sua figura passou a representar para a cidade de
Leopoldina, manifestando-se em sua vida de empresário, pai de família, político
e, acima de tudo, professor. O Professor Alziro representa a importância dos
profissionais que se empenham na nobre arte do magistério que, tal qual o
sacerdócio, só é capaz de elevar os espíritos dos jovens se praticada com
honestidade intelectual e pureza de caráter.
Professor
Alziro não é filho natural de Leopoldina/MG. Mas aqui encontrou solo fértil
para seu crescimento. Contribuiu cultural, econômica e politicamente para o
desenvolvimento da cidade e em nossa terra permaneceu até seus últimos dias,
partindo aos 86 anos.
Cláudio
Réche Iennaco
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Favor informar endereço de e-mail para resposta.