"Para além de grande escritor e de inspiradíssimo poeta, Torga foi um homem de fortes convicções, sempre presente e solidário no que considerava os grandes combates cívicos necessários à consolidação de uma democracia pluralista no nosso País, que pensava com uma lucidez raríssima e que, para ele, devia ter uma indispensável dimensão social e humana[...] " Mário Soares ex presidente de Portugal
“ Eu amo a medicina. Amo o que há de absoluto em cada Vida. A doença é um estado absoluto. Perto da morte. A cada vez um desafio de arrancar o doente do sofrimento, da morte. É a mesma coisa com a literatura. Luto com as palavras como luto com a morte.”
Minha terra,
TORGA E OS ARTISTA QUE AMAVA
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Cecília Meireles Das palavras aéreas -Romanceiro da Inconfidência
Sozinho no escuro
qual bicho- do- mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
“Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse raimundo
seria uma rima, não seria solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.”
Carlos Drummond de Andrade
“Ah, todo cais é uma saudade de pedra!”
Fernando Pessoa - Ode Marítima
( atrás do texto o mar e caravela ou só o mar)
“ No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
e a alegria de todos, e a minha,estava certa como uma religião qualquer
[...]
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu deus, meu deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dia.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!,..”
Fernando Pessoa
[...]“Rua da União...
Como eram lindos os nomes da ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do dr Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
_ Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi meu primeiro alumbramento.”[...]
Manuel Bandeira
Miguel Torga nasceu em 12/08/1907 na vila de São
Martinho de Anta, Sabrosa, região de Trás-os-Montes, Portugal. Seu nome de
batismo era Adolfo Correa Rocha, e seu pseudônimo foi uma homenagem a Miguel de
Cervantes, Miguel de Unamuno, Miguel Ângelo, escritores que ele admirava, e Torga
é o nome de um arbusto resistente de sua região.
Chegou ao Brasil com 12 anos para trabalhar nas
fazendas de um tio. Seu nome está fortemente ligado a Leopoldina, onde morou
entre os anos de 1920 e 1925, tendo estudado no Ginásio Leopoldinense. Durante
seu período na fazenda, com a sensibilidade aguçada da adolescência, vivenciou
sentimentos conflitantes: de um lado, o encantamento pela natureza exuberante e
pela fartura de frutas, gado, café; de outro, muito sofrimento pelo tratamento
que recebia de sua tia e pela falta que sentia do carinho dos pais.
Foram anos de muito trabalho, responsabilidade,
medo, fragilidades e saudade da família. Mesmo assim, lia muito e encomendava
livros a seu tio quando este ia ao Rio de Janeiro. Este tio, reconhecendo seu
esforço, inteligência e amor à leitura, assim como o trabalho e sofrimento
impostos pela tia, matriculou-o no Ginásio em Leopoldina, onde escreveu seus
primeiros versos.
Voltou para Portugal, onde estudou medicina,
especializando-se em otorrinolaringologia, e publicou seus primeiros livros.
Casou-se com Andréa Crabbé, com quem teve a filha Clara. Foi autor de poesias,
contos, memórias, romances, teatro e ensaios. Recebeu, entre outros, o Prêmio
Montaigne e o Prêmio Camões. Entre suas obras incluem-se Contos da Montanha,
Bichos, Novos Cantos da Montanha, A Criação do Mundo (uma autobiografia
usando nomes fictícios) e 16 volumes do Diário. Sua obra A Criação do
Mundo se divide em capítulos, ou “Dias”, como os nomeou Torga. No segundo
dia, estão relatadas as experiências que viveu em Leopoldina.
Foi citado como candidato ao Prêmio Nobel e, no
dizer de outros escritores, não seria agraciado devido ao fato de escrever em
português. Esteve no Brasil em 1954, sendo reconhecido por escritores e
intelectuais, já consagrado por sua grande obra. Nessa visita, resgatou as
memórias das coisas boas vividas em nosso país, tornando menos vívidas as
lembranças amargas.
Teve grande participação na luta política contra
a ditadura de Salazar e, ao expressar claramente suas opiniões, foi preso, mas
não deixou de lutar pela liberdade, embora se recusasse sempre a se filiar a
algum Partido político.
Por toda vida debateu-se entre duas forças
opostas: o otimismo que todo ato criador implica e o pessimismo quanto à
fragilidade de caráter da natureza humana. Por fim, faleceu em Coimbra em 17/01/1995,
louvado por seu talento, suas obras e seu caráter incorruptível.
O poema a seguir revela seu amor à sua terra
natal e a importância que teve o Brasil na sua formação afetiva.
Glória
Maria Barroso
Brasil
(Miguel Torga)
Brasil
onde vivi,
Brasil
onde penei,
Brasil dos
meus assombros de menino:
Há quanto
tempo já que te deixei,
Cais do
lado de lá do meu destino!
Que milhas
de angústia no mar da saudade!
Que
salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te
mais.
Outra
orfandade,
Agora sem
o amparo da inocência.
Dois pólos
de atração no pensamento!
Duas
ânsias opostas nos sentidos!
Um
purgatório em que o sofrimento
Nunca
avista um dos céus apetecidos.
Ah,
desterro do rosto em cada face,
Tristeza
de um regaço repartido!
Antes o
desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.
O PROF. PAULO TEIXEIRA CABOCLO, ARTUR BERNARDES E A VOZ DO RIBEIRÃO: “[...]
o professor Paulo Teixeira Caboclo tinha outra grandeza. Além de ser poeta –
fizera versos a Sacadura Cabral e a Gago Coutinho, à chegada deles à ilha de
Fernando de Noronha –, sabíamos que deixara Manaus por imposição do governador,
que se vira aflito na Alemanha durante a guerra, acusado de espionagem, que
combatia o Doutor Artur Bernardes, presidente da República, e que durante as
férias, em virtude disso, fora preso, levado ao Rio de Janeiro e metido na
geladeira. Mas ali estava como dantes, todo teso, pequenino, a ensinar os
verbos franceses, metido no colarinho engomado, com as entradas do cabelo mais
subidas ainda. Enchera-me de entusiasmo, na fazenda, o artigo que lhe valera o
calabouço, publicado na Voz do Ribeirão,
que meu tio assinava desde a minha ida para o Ginásio. Falava da liberdade de
pensamento, do respeito pela dignidade humana, acusava os tiranos de assassinos
da consciência, e acabava por concluir que o Brasil era um feudo de meia dúzia
de capangueiros. O resultado foi aquele: ser catrafilado e crucificado na
cadeia. Mas resistia valentemente, e todos o considerávamos um herói, e o
respeitávamos como tal” (Miguel Torga sobre o prof. Júlio Ferreira Caboclo,
patrono da cadeira 20 da ALLA - em A Criação do Mundo, p. 147-48).





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