Irineu Lisboapor Ronald Alvim Barbosa
Chegará Fevereiro e com ele o Carnaval...
Muita alegria, mas já não tanta,
pois uma ponta de saudade indicará
que morreu um pouco da nossa festa.
Um toque do humor sadio
deixará de existir.
Doutor Lisboa não estará entre nós.
Chegará Junho e com ele as festas do mês...
Haverá fogos, fogueiras, quentão...
Santo Antônio, São Pedro e São João.
Os fogos já não terão tanto brilho,
o casamento estará incompleto...
Doutor Lisboa não estará entre nós.
Chegará Dezembro, o Natal, o pequeno Jesus...
Renascerá em nós o desejo de paz, esperança e fé.
Mas os sinos dobrarão diferentes.
As crianças da Pediatria não verão o Papai Noel.
Doutor Lisboa não estará entre nós.
Mas há uma esperança!
Dependerá da pureza de nossos corações
reencontrarmos, novamente, Doutor Lisboa.
Claro, é questão de tempo...
Um dia voltaremos a sentir sua alegria,
seu humor, sua bondade.
Meu Deus,
faça com que eu tenha um coração puro,
sem rancor e sem maldade,
para que um dia eu possa rever um velho amigo.
Irineu Lisboa nasceu em 25/03/1894, na cidade de Pedra Branca, no sul de Minas Gerais. Era filho de Maria Cândida de Paiva Xavier Lisboa e Antônio Maximiano Xavier Lisboa. Como o pai, seguiu a carreira médica, tendo se formado, em 1917, pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, hoje UFMG.
Após concluir o curso, Irineu foi designado por Samuel Libânio, professor da Escola de Medicina e chefe da Diretoria de Higiene do estado, para assumir o cargo de Médico Sanitarista no Posto de Profilaxia Rural em Leopoldina. A cidade, de economia próspera e localização privilegiada, foi pioneira na instalação desse tipo de serviço, essencial para o combate a doenças como a febre amarela, a varíola e o cólera.
Segundo relato do Prof. Rodolfo Alves Pereira, no jornal “Leopoldinense”: o “Dr. Irineu Lisboa chegou à cidade em 1918. Prestava atendimento no posto, visitava as casas, fazia palestras nas escolas e se dirigia, a cavalo ou de charrete, até as fazendas do município, onde cuidava dos enfermos. Somente entre 19 e 24 de agosto daquele ano, foram distribuídas 575 latinhas para coleta de fezes, o que levou os populares a apelidarem o jovem médico de "doutor das latinhas". Mais de quatrocentos exames foram realizados. Ficou constatado que 83% dos pacientes testaram positivo para verminoses.”
Em 1920, Dr. Irineu foi transferido para Ubá, exercendo ainda inspeções nos postos de profilaxia do oeste, norte e sul de Minas. Em 1921, foi nomeado Chefe de Distrito da Diretoria de Saneamento e Profilaxia Rural, trabalhando em Santa Rita do Sapucaí, Uberlândia, Divinópolis e Pouso Alegre. Em 1929, foi nomeado Chefe de Posto de Higiene Permanente, em Leopoldina.
Além do excelente trabalho como médico sanitarista, Irineu Lisboa atuou também como radiologista. Em 1929, criado o Serviço de Radiologia da Casa de Caridade Leopoldinense, ele assume a chefia do referido serviço. Trabalhou até 1938 sem nenhum tipo de remuneração. Em 1973, aposenta-se como radiologista, aos 79 anos.
Irineu Lisboa casou-se com Cinira Ribeiro Junqueira. Tiveram dois filhos: Alice e Antônio Marcio Junqueira Lisboa. Fixou residência em Leopoldina e aqui fez inúmeros amigos, dos quais se destaca, na memória leopoldinense, o artista Funchal Garcia – também patrono da ALLA -, com quem partilhava a paixão pelo carnaval.
Os amigos exerciam sua criatividade criando fantasias originais e educativas. Ainda segundo relato do prof. Rodolfo Pereira: “Na celebração popular de 1931, a dupla desfilou no carro do posto de Higiene, aproveitando o momento festivo para conscientizar a população local acerca do risco do mosquito Stegomyiafasciata ou Culex aegypti (Aedes). O carro estava ornado com uma representação gigante do vetor da febre amarela sobre as plantas; Irineu, de branco, fantasiava-se de médico; ao seu lado, em tom fúnebre, Funchal ostentava uma fantasia de caveira. Eis a mensagem: "O mosquito mata. Previna-se!". Assim, de forma didática, divertida e eficaz, o médico e o artista alcançavam a todos - letrados e analfabetos.” Essa é uma outra face de Irineu Lisboa: o gosto pela arte, pela música, pela literatura. Compunha quadras, escrevia cartas, era ilustrador.
Ao longo de sua carreira, colecionou honrarias - dentre elas a Medalha da Inconfidência, outorgada pelo Governo de Minas Gerais - e o reconhecimento dos leopoldinenses, materializado também nesta homenagem da ALLA.

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