quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Pedra, poesia de Fabrício Manca

Fabrício Manca em foto de arquivo do jornal Leopoldinense
Fabrício Manca em foto de arquivo do jornal Leopoldinense

O leopoldinense Fabrício Manca foi a Belo Horizonte defender sua poesia A Pedra, na finalíssima do 4º Concurso Sesi de Literatura, dia 5 de agosto de 2017. A obra foi selecionada, por membros da Academia Mineira de Letras, como uma das finalistas entre as 625 inscritas, de 92 municípios mineiros. 
Fabrício Manca, o representante de Leopoldina neste importante concurso literário!


A pedra


(Fabrício Manca)


A pedra que acertaste em minha testa
É tão fria quanto tua mão que a molesta
Tão rígida quanto seu coração sombrio
Na noite que juraste ferir-me por amor
Restou-me apenas espinhos de uma flor
Que morrera de tristeza, câncer e frio

Perdi o caminho de casa naquela noite triste
Vi as desgraças reunidas, mas tu, tu não viste
Testemunhei a queda humilhante dos vitrais
Vi a agonia divertir-se enquanto esquartejava
Minha alma, tu não vira, a essa hora já estava
Recolhendo os cacos da dor que me ardia mais

Meu coração, assim como fígado de Prometeu
Regenerou-se tão rápido quanto você o comeu
Para que no dia seguinte voltasse a devorá-lo
E assim, dia a dia, o meu sofrimento eterno ia, ia…
E quanto maior meu coração, mais você o comia
Eternizando assim a agonia de não poder pará-lo

Eu era um desgraçado esmolando flor no paraíso
Oferecendo a eternidade em troca do seu sorriso
Ao som sarcástico das gargalhadas dos cupidos
Que no submundo do Éden, traficavam os amores
Arrancando a alma e a dignidade desses senhores
Em troca de todos os valores não correspondidos

E assim, no nível mais inferior da minha loucura
Eu observava tua cria porca com tamanha paúra
Que em meio a tantas quimeras e abstrações
Era ela, a fera mais desorientada, rústica e louca
Que carregava no vermelho quente da sua boca
O sangue fresco de todos os sôfregos corações

Como Atlas que carregava o peso do firmamento
Sobre minhas costas eu tinha todo o sofrimento
Dos bilhões de amores perdidos naquele segundo
Eu gemia só, aquela dor, com tamanha intensidade
Que tal era o peso do desespero da humanidade
Era assim, sobre minhas costas, o peso do mundo

Era a voz da alma que me esgoelava toda tristeza
E na afasia desesperadora da minha língua presa
Eu ruminava restos podres de poesias esquecidas
Eu era como o beato que se entrega ao ateísmo
O Poeta desacreditado que se joga nesse abismo
Onde jazem todas as inspirações desaparecidas

Não, não me negaram flores no dia seguinte
Não me era o Natal, era-me sim, por conseguinte
O dia derradeiro em que hoje comemoro a morte
O dia em que os monstros me comeram a psique
Com a beleza de quem monta um piquenique
Para devorar o fraco que se mostrar mais forte

E foi de manhã, numa súbita crise de sanidade
Que me vi dominar o amor com tanta habilidade
Que ele me parecia no colo, um filhote vulnerável
E antes que crescesse e me devorasse por inteiro
Fiz com que gritasse e se escondesse no bueiro
Onde esconde todo sentimento hostil e miserável

A pedra ainda ardia minha testa quando adormeci
E durante o sono, em um pesadelo, foi que eu vi
Que amar tanto assim, é que me foi o maior erro
Eu acordei na mais completa e absoluta solidão
E descobri sob os escombros do meu coração
Que o amor morreu e eu não fui ao seu enterro

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