segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Da privilegiada formação de um grande poeta-tradutor

Anderson Braga Horta
Academia Brasiliense de Letras,
em 20 de março de 2014.

Conheço José Jeronymo Rivera, e de então nos fizemos amigos, desde os remotos tempos de nossa adolescência, nos bancos escolares, em Minas Gerais.

Em 1950, Leopoldina era ainda um importante centro educacional –apelidavam-na Atenas da Zona da Mata–, vivo e procurado por estudantes de toda procedência, em que pese a concorrência da contígua Cataguases, cujo Colégio, projeto de Oscar Niemeyer, com jardins de Burle Marx, móveis de Joaquim Tenreiro e um vigoroso painel de Portinari sobre o Tiradentes, como que continuava a explosão modernizadora de Humberto Mauro, da Revista Verde e da Meia-Pataca de nossa Lina Tâmega. Já não existiam os cursos superiores, mas o Colégio Leopoldinense continuava lá, imponente, com sua fachada grega e, no vértice do triângulo, a inscrição latina Mens agitat molem.  Tinha um corpo docente de elevado nível. Ainda lá pontificava o quase lendário Professor Machado, figura extraordinária de educador e grande figura humana. Português, engenheiro formado na terrinha, exerceu a profissão na região que Vivaldi Moreira gostava de chamar “a grande Carangola”, passando logo a educador e dono de um educandário. Tinha fama de truculento. E evocá-lo me sugere uma precoce digressão.

Já no Leopoldinense, Machado foi mestre de meu pai, que gostava de falar de sua cultura e suas façanhas. Contava-se, por exemplo, que chegara a “atirar” um aluno para fora de classe, pela janela... Não quero repeti-lo, contudo, sem o cuidado de lembrar que as salas de aula do velho colégio lançavam porta e janelas para um corredor interno; de modo que a queda não podia ser grande; na verdade, era praticamente simbólica. Mas a fama chegou até os nossos dias. Contrariando-a, nosso convívio com ele era timbrado por sua delicadeza de trato e por seu interesse em música (tocava o seu violino) e literatura, notadamente poesia.

Outro europeu dava ali seu contributo à educação (num tempo em que podíamos ainda usar a palavra com propriedade): o francês Rodolphe Gibrat, que lecionava sua língua natal, a espanhola e a latina.

Se os dois europeus brilhavam, havia também a prata da casa. Nosso professor de Português, o poeta Geraldo de Vasconcellos Barcellos, era um deles. E Hamil Adum, nosso irrequieto professor de Inglês. E Lydio Machado Bandeira de Mello, meu patrono na Academia Leopoldinense de Letras e Artes, cuja carreira magisterial culminou na cátedra de Direito Penal da Universidade Federal de Minas Gerais. E –finalizando, para não me estender em demasia–, o polígrafo Oiliam José, ainda hoje atuante na Academia Mineira de Letras, de que é secretário honorário.

No quadro assim superficialmente esboçado inseriu-se à maravilha o José Jeronymo, ou simplesmente Jeronymo, como o chamava a maioria dos colegas. Grande leitor, era visto aos domingos num dos bancos da praça fronteira ao colégio, sobraçando os jornais de fim-de-semana, entre eles o enorme Estadão. Lia-os, como  costumávamos dizer, de cabo a rabo. Como em sociedade nada se perdoa, ganhou o apelido de Zé Jornaleiro. Era senhor de grande acuidade mental e memória incomum. Tendo parado de estudar durante algum tempo, juntamente com seu irmão, Deodato, manteve contudo o interesse em coisas de cultura, de modo que sobressaía notoriamente na multidão dos alunos. Tirava sempre dez em todas as matérias. Sua excepcional proficiência levou as autoridades eclesiásticas a contratá-lo para lecionar no seminário local. Às vezes corrigia proposições desatentas de algum docente nem tão qualificado. Havia um, talvez menos dedicado, que freqüentemente lhe passava a batuta e limitava-se a lhe assistir à aula, quase como um de seus alunos. Certa vez –hoje estou dado a digressões...– um professor, por implicante discordância em questão de somenos, atreveu-se a lhe dar um nove e meio. A injustiça foi causa de um quase-tumulto na escola. Posso dizer que o Zé se tornou, em pendant com o velho Machado, quase uma lenda, se não um herói, no âmbito da escola e da cidade.

Por esse tempo começamos a fazer poesia, José, Deodato, eu e mais alguns amigos. Do grupo, era ele o mais aparelhado para o poema, especialmente o tradicional, que requeria conhecimento e leitura. Nem lhe faltava –tão cedo!– alguma dolorosa experiência de vida: filho de Emílio Vello Rivera e de Helena Pinto Ribeiro Rivera, ficou órfão da mãe aos oito para nove anos (Helena morreu na cidade de Barbacena, o que me incita a imaginar, meio que divagando em nuvens, a ida do jovem a Minas como inconsciente busca de identidade; idéia gratuita, vá lá; mas uma coisa é certa: Minas representou para os dois órfãos um rito de libertação); seguiu-a o pai, no Rio de Janeiro, cerca de um ano depois. Os primeiros versos de Rivera foram já de causar inveja a muito poeta veterano. Um soneto, e que soneto! Veja-se como, após ligeira hesitação inicial, a dicção se consolida no segundo quarteto, a idéia-sentimento ascende na tríade seguinte e, impulsionada pela gradação do verso undécimo, vai culminar no áureo terceto final:


VIDA E SONHO
Não sou poeta. E embora faça versos

Em mim não sinto o espírito criador

Que entre caracteres tão diversos

Distingue o ser feliz do sofredor.

Meus sonhos e quimeras vão, dispersos,

Levados por um vento acolhedor,

Através da amplidão dos Universos

Da Fantasia, do Ideal, do Amor.

Que a vida humana, um desejar constante,

Uma nova ansiedade a cada instante,

Ontem e hoje, hoje e sempre se resume

Num sonho inebriante que sonhamos,

Do qual, como lembrança, conservamos

Apenas o nostálgico perfume...


Um soneto sério, para um adolescente poeta. Vive-se então a fase em que o pensar se prepara para o vôo, mas em que também se começa a pagar à vida o tributo do amor. E o jovem poeta dá, naturalmente, testemunho do seu. Vejamo-lo noutro soneto:


VISÃO NA ALVORADA

A aurora vem raiando. O véu negro da noite

Dilui-se, a pouco e pouco, à luz de um novo dia,

Como se fosse um brando, um suave e leve açoite

A varrer da amplidão a manta escura e fria.

As brumas da manhã que nasce bela e clara

Dissolvem-se no espaço, alvas, esmaecidas,

Cobrindo de rubor a face que beijara

O sol a dardejar em setas coloridas.

No firmamento azul, um pássaro dolente

Gorjeia sem parar, saudando a madrugada,

Na sinfonia agreste e virgem do nascente.

E eu que vou indo triste a caminhar na estrada

Vislumbro na harmonia imensa a minha frente

– Sorrindo para mim, o teu olhar de fada!


Seu Aprendizado Poético (título do opúsculo que publicou pela Thesaurus, em 2004, reunindo essas primícias) completou-se em cerca de três anos, de 1951 a 1953. Também aqui mereceria nota dez, caso submetido a avaliação. Alguns dos poemas aí enfeixados saíram em livro em 1994 (Alma Gentil – Novos Sonetos de Amor, organização de Nilto Maciel); em 2003 participaria com uma composição brasiliense na Antologia de Haicais Brasileiros, organizada por Napoleão Valadares.

Em 1953, seu último ano em Leopoldina, coube-lhe, mercê do currículo privilegiado, comandar a ressurreição do jornal dos estudantes. De maio a outubro tirou, como diretor, auxiliado pelo irmão, secretário, sete edições do Três de Junho. O número inaugural, datado de 5 de maio, trazia no editorial, assinado por José Jeronymo Rivera, com uma palavra sobre o renascer do órgão estudantil –“das próprias cinzas”, como a Fênix–, uma profissão de fé jornalística: 


A nossa linha de conduta –dizia– será invariavelmente uma: a verdade. A verdade em toda e qualquer hipótese, a verdade cristã na vanguarda da luta diuturna contra o erro e a mentira, a verdade pura e imaculada de nossa crença pautando o nosso pensamento e as nossas palavras, contendo nossos impulsos e fazendo-nos agir em conformidade com os princípios sagrados de nossa formação moral e religiosa.

No final da página 2 estampava o soneto “Espectros”.

Ainda naquele mês, no dia 20, saía o número 2, com matéria editorial intitulada “Maio, Mês das Mães” e, fechando a edição, o soneto “Mãe”. O terceiro número saiu na data epônima do jornal, data de fundação do Colégio, Rivera assinando matéria alusiva e estreando uma coluna de cinema, com artigo sobre o filme japonês O Sino de Nagazáki. Em nova edição, vinda a lume no dia 20 do mesmo mês de junho, o editorial é sobre a “Subversão de Valores” em que se engolfava a cultura brasileira, com a ascensão do materialismo, do culto ao dinheiro e à notoriedade, em detrimento dos valores intelectuais e espirituais construídos por homens do porte “de um Ruy, de um Joaquim Nabuco, de um Teixeira de Freitas, de um Machado de Assis, de um Osvaldo Cruz, de um Bilac”; e a novidade é a criação de uma “Galeria dos Poetas Brasileiros”, aberta pelo próprio Rivera com o autor de “Cantilena” (“Quando as estrelas surgem na tarde, surge a esperança...”). Em 5 de agosto, o poeta da “Galeria” é Cruz e Sousa, e a página de abertura é sobre “o problema do ensino” – e é melancólico assinalar que sentimos saudade da educação que se ministrava in illo tempore, que a decadência, que a insuficiência verberada pelo editorialista, embora a razão que decerto o amparava, representaria hoje um avanço, um progresso, seria, mesmo, quase um patamar ideal, ressalvada a tecnologia de que atualmente podemos dispor. No penúltimo número, de 10 de outubro, o poeta homenageado é Moacir de Almeida, e o editorial, “Notas sobre Cultura”, tem palavras que permanecem atuais – a unificação da humanidade ainda está no plano da esperança, é bem verdade, mas as expectativas continuam válidas:

O mundo é um só: apesar da ignorância e do atraso de algumas grandes massas humanas, sobretudo do Oriente, a vida espiritual e intelectual da humanidade tende a unificar-se, em um futuro não muito remoto talvez. As conquistas da ciência necessitam expandir-se mais e mais: já não há lugar para alheamento ou indiferença. O homem sente que é chegado o momento em que todos os povos da terra se unam e, desprezando os fatores maléficos de desagregação e a diversidade de tradições e princípios, trabalhem harmoniosa e eficazmente pela conquista da paz ....

Finalmente, em 25 de outubro, a edição de encerramento do ano – e da Fênix renascida sob o condão riveriano. José cede a primeira página para um conto de Deodato, “História de um Menino Triste”. O editorial vai para a última página; intitula-se “A Hora da Decisão”, toma por mote a obra de Stefan Zweig Brasil – País do Futuro, cita Ronald de Carvalho (“O erro primordial das nossas elites, até agora, foi aplicar ao Brasil, artificialmente, a lição européia”) e aponta as mazelas a combater, num discurso infelizmente ainda atual, mesmo quanto ao analfabetismo, se não esquecemos –e não devemos esquecer– sua permanência no que se convencionou chamar de analfabetismo funcional. Ei-las, na palavra do ginasiano de então:


o combate ao analfabetismo que obumbra a mente de setenta por cento do nosso povo; a melhoria do padrão de vida do homem no campo, evitando-se o êxodo das populações rurais; a difusão e a reorganização completa e objetiva do ensino, propiciando melhor aproveitamento e maior número de técnicos e profissionais especializados, e não apenas bacharéis, muita vez desprovidos de idéias e cheios de ambição; a distribuição equitativa das riquezas, em relação ao esforço e à capacidade de cada um; e, acima de tudo, a revisão dos valores, atribuindo-se a cada fator uma  posição hierárquica, de acordo com a sua importância intrínseca, bem como a compreensão individual das responsabilidades e dos deveres, dos direitos e das obrigações perante o tribunal da nacionalidade e perante o tribunal da consciência.


Jeronymo não volta para Leopoldina em 1954. Sem sua presença dinamizadora, a Fênix morre de vez. Imprimiu-se, todavia, uma edição extra, comemorativa do septuagésimo quinto aniversário do Colégio, em 1981.

Detenho-me nessa breve sobrevida do Três de Junho porque me parece uma realização importante na história do Colégio e definidora do caráter e dos interesses culturais de Rivera. Esses interesses o levariam à formação profissional como Engenheiro Civil, Administrador de Empresas e Economista, ao magistério de nível médio e superior, ao exercício de importantes funções no serviço público, no Rio de Janeiro e em Brasília, à colaboração em programas radiofônicos de música clássica e, abreviando, à literatura, notadamente como tradutor de poesia. Em virtude da sobrelevação desse veio nas áureas minas riverianas, dedicar-lhe-ei com exclusividade a segunda parte desta oração.

Aluno de Francês da Professora Regina Monteiro de Castro, teve já no Ginásio uma boa exercitação na faina tradutória; mas a tradução propriamente literária só veio a tentá-lo em Brasília, em meados dos anos 70. Tendo abandonado precoce e injustificadamente a prática do poema, foi esse o meio que preferiu para reaproximar-se ativamente da poesia (como leitor, nunca se afastou dela).

A publicação em livro de algumas das primeiras traduções ocorre em 1976, com Capital Poems (Victor Alegria – Thesaurus, 1989) e Caliandra – Poesia em Brasília (André Quicé Editor, 1995). O primeiro livro próprio, na espécie, teria de esperar o ano de 1998, quando publica pela Thesaurus Poesia Francesa: Pequena Antologia Bilíngüe, com apresentação nossa, de Arino Peres e de João Carlos Taveira. Foi uma estréia esplêndida, mostrando um poeta de grande força a empregar o seu talento na transposição de autores que iam de Guillaume de Machaut (c. 1300-c. 1377) a Paul Éluard (1895-1952). A segunda edição, dada a lume dez anos depois, esticaria este termo até os nossos dias, com os contemporâneos Yves Bonnefoy e Philippe Jaccottet. Dentre as esmeradas versões em nossa língua é difícil escolher. Qualquer uma traduziria dignamente o bem-recompensado esforço de Rivera. Fiquemos com Baudelaire, poeta de nossa predileção, aí representado preeminentemente –o destaque é meu– por dois sonetos, “Recueillement” e “La Musique”; e, dentre esses, por causa da musicofilia que nos é comum, com o segundo:


A MÚSICA


A música me atrai, muita vez, como o mar!

Rumo à etérea estrela,

Sob um teto de bruma ou na amplidão solar,

Ergo minha vela;


De peito para a frente e com os pulmões inflados,

Qual fossem de tela,

Escalo à vaga imensa os cimos sublevados

Que a noite me vela.


Sinto vibrar em mim o fervor das paixões

De um barco sofrendo;

O bom vento, a tormenta e suas convulsões


No abismo tremendo

Me embalam. Vez a vez, calmaria a espelhar

Todo o meu penar! 


A recepção da Pequena Antologia foi consagradora. Saudaram-na entusiasticamente cerca de três dezenas de escritores de mérito e nomeada. Da numerosa relação pinço, pelo denso de seus comentários, alguns nomes significativos: Alphonsus de Guimaraens Filho, Carlos Nejar, Cleonice Berardinelli, a portuguesa Dalila Pereira da Costa, Fausto Cunha, a italiana Luciana Stegagno Picchio. Se monótono fôra enumerá-los, inviável é transcrevê-los. Limito a exemplificação a um deles, Alexei Bueno, cujo depoimento resume admiravelmente o impacto positivo da estréia riveriana, ao passo que o declara “um dos maiores tradutores de poesia do Brasil”:


Suas traduções –diz ele– são magistrais, algumas inigualáveis. O “Recolhimento”, do Baudelaire, que julgo dos maiores sonetos da língua francesa, está extraordinário, mas o grande espanto é o quase impossível Cemitério Marinho. Que grandes soluções as suas, e que arte em abandonar as consoantes pelas toantes nos momentos inevitáveis, criando verdadeiras surpresas no que seria uma irregularidade e mantendo de ponta a ponta o tom e o registro altíssimo desse poema sem paralelo.


Não posso deixar, contudo, sem menção o veredicto de Fausto Cunha, objeto de nossa comum admiração. Para o contista de As Noites Marcianas e ensaísta de O Romantismo no Brasil, a Pequena Antologia é em verdade grande, e o “Cemitério Marinho”, “um muitíssimo bem sucedido morceau de bravoure”.

De 1999 é Cidades Tentaculares (Les Villes Tentaculaires), primeiro livro de Émile Verhaeren traduzido integralmente entre nós. Rivera tem pronta para o prelo a tradução de outro livro desse belga de expressão francesa, Les Heures. Em 2001 lançou as Rimas de Gustavo Adolfo Bécquer. Dessas, que lhe valeram o prêmio Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro, quero lembrar um poema que apreciamos desde as primeiras lições de Espanhol, em Leopoldina:

Do salão em um ângulo escuro,

de sua dona talvez olvidada,

silenciosa e coberta de pó

via-se a harpa.

Quanta nota dormia nas cordas,

como o pássaro dorme nas ramas,

esperando sentir a mão nívea

que sabe arrancá-la.

–Ai –pensei–. Quantas vezes o gênio

assim dorme no fundo de uma alma,

e uma voz, como Lázaro, espera

que lhe diga: “Levanta-te e anda”!

Outra novidade em português são os poemas em prosa do Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand. Nosso querido Xavier Placer historia, no prefácio:

ORA CONHECENDO as traduções de poesia francesa e espanhola de José Jeronymo Rivera, sugeri um dia que traduzisse o Gaspard. E ele, de Brasília, em suas costumeiras cartas fonadas: – Aceito o repto! Correu a informar-se em detalhe com o bibliófilo e musicólogo Sérgio Luiz Gaio, que possuía o raro autor em bela edição e que ainda o fez ouvir bertrandianos poemas musicados por Ravel.

Após declará-lo “tradutor fiel e exigente”, diz mais:

Ao trabalhador intelectual José Jeronymo Rivera, de formação matemática, musical e literária, louvação não é preciso. O feito e bem feito o promove.

Cabe salientar entretanto que, com sólida experiência neste ofício difícil (Ortega y Gasset qualificou-o de “faena improbable/ pero de gran sentido” em Ideas y Creencias – Miseria y Esplendor de la Traducción), mais uma vez saiu-se bem, confirmando premiações por outros trabalhos.

Porque sabe que traduzir é servir, mas não se escravizando à letra, atualizando com inteligente e aberto critério, ah! e jamais se substituindo ao Autor. Fundo e forma aqui estão preservados: sabor do original. E sem retirar a feição estética do volume, quis acrescê-lo do instrumental informativo. Além da cronologia de Bertrand apresenta a fortuna crítica mais nova do Gaspard de la Nuit.

Mereceu esse trabalho (como os anteriores, edição da Thesaurus; data: 2003) excelentes críticas de Adelto Gonçalves, Antônio Olinto, Manuel Hygino dos Santos e Rubens Shirassu Júnior.

Dez anos depois vem a lume, pela mesma Editora, A Voz a Ti Devida, do poeta espanhol (da famosa Geração de 27) Pedro Salinas (de quem, aliás, tem também José Jeronymo, prontas, a tradução de Razón de Amor e Largo Lamento, completando a “trilogia amorosa”, além das versões de El Contemplado e Todo más Claro). Rivera, esse “poeta disfrazado de traductor”, na feliz expressão de José Antonio Pérez-Montoro, que assina o estudo introdutório, foi, a propósito, alvo de lúcido comentário de Adelto Gonçalves, que o aponta como “um dos grandes tradutores das poesias espanhola e francesa para a Língua Portuguesa”. Nas orelhas, o poeta João Carlos Taveira registra “a marca de qualidade da tradução de José Jeronymo Rivera, com a confirmação do velho axioma: ‘Todo tradutor de poesia deve ser, em essência, um poeta.’”

Nosso poeta-tradutor lançou ainda um bom número de edições do mesmo gênero (todas bilíngues) em parceria com autores do porte de um Fernando Mendes Vianna e um José Augusto Seabra: Poetas do Século de Ouro Espanhol (Embaixada da Espanha / Thesaurus, 2000), laureado com o Prêmio Joaquim Norberto, da UBE – Rio de Janeiro; Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia (Thesaurus) e O Sátiro e Outros Poemas (Galo Branco), em 2002; Antologia Pessoal de Rodolfo Alonso (Thesaurus) e 25 Sonetos Descaradamente Eróticos, de José Antonio Pérez-Montoro (Círculo de Estudos Clássicos de Brasília), ambos de 2003; e Antologia Poética Ibero-Americana, organizada por Pavel Égüez para a Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos (Cuiabá, 2006). Participou, finalmente, com traduções inversas, do português para o espanhol, no belíssimo volume, organizado por Seabra, Poetas Portugueses e Brasileiros dos Simbolistas aos Modernistas (Instituto Camões / Thesaurus, 2002).

Na coleção Livro na Rua, da Thesaurus, publicou, além de seu Aprendizado de Poesia, na condição de organizador: Humberto de Campos: Poesia; Xavier Placer: Poemas; Miguel Torga: Contos e Almeida Garrett: Poesias.

Completando o quadro de suas atividades literárias: tem realizado palestras na Associação Nacional de Escritores e na Biblioteca Nacional de Brasília, e colaborado em periódicos como Literatura, Revista de Poesia e Crítica, Revista da Academia Brasiliense de Letras e Jornal da ANE.

Encerremos nossa homenagem a esse tradutor extraordinário com outra exaltação à arte de Euterpe, na voz privilegiada de Albert Samain, privilegiadamente modulada por José Jeronymo Rivera:

MÚSICA

Se palavras não há que possam de minha alma,

Nesta noite, conter a ânsia de sossegar,

Que um arco puro se erga e cante, e seu cantar,

Sozinho, me transforme o sonho ansioso em calma.

Ó taça de cristal com a lembrança que ensalma!

Ó Música, tu vens minha sede matar;

Só no segredo teu, como um lábio a beijar

Outro lábio, instintiva, a alma se funde e acalma.

Soluço de ouro!... Estranho e divino mistério!

Um vento de asa corre, e é como um refrigério;

Mãos de anjos vêm passear em nós sua doçura,

Harmonia, e tu és a Virgem amorável,

A criança gentil que em seu peito emoldura

O nosso coração imenso e miserável.

José Jeronymo Rivera vem enriquecer nossa orquestra acadêmica de um instrumento raro. É-lhe destinada a Cadeira n.º XXVIII – Olavo Bilac, antes ocupada por Clovis Sena, ilustre jornalista, poeta e ensaísta, como nós amante da música, dileto amigo nosso desde os inícios de Brasília. 

Bem-vindo seja.

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