segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Poeta e Mestre de Poesia

Anderson Braga Horta
In: Testemunho & Participação: Ensaio e Crítica Literária.
Thesaurus, Brasília, 2005


Geraldo de Vasconcellos Barcellos – Para Elza
Rede 3 de Junho, Rio de Janeiro, 1996 – Prefácio


Quando cheguei a Leopoldina, em 1950, para fazer o Clássico, o Colégio Leopoldinense vivia um de seus momentos de fastígio. Entre os mestres que, nos próximos três anos, me dariam sua preciosa orientação contava-se, por exemplo, o velho Joaquim Guedes Machado. Português, formado em Engenharia e em Direito, musicista, era o arquifamoso professor de Matemática de quem meu Pai, que fôra seu discípulo no mesmo educandário, lembrava histórias que ressaltavam, quase sempre, o gênio um tanto forte... No meu tempo, esse gênio se abrandara. Em minha lembrança, o que surge é o homem sensível, de notável agilidade mental, atencioso para com o jovem que mergulhava, então, nas primícias voluptuosas de uma torrencial produção poética. Outro europeu ali radicado, com o qual o Machado se esquecia às vezes em longas conversas, era M. Rodolphe Gibrat, que lecionava o Espanhol e sua língua de berço, o Francês. Hamil Adum, advogado e escritor, dava aulas de Inglês, encantando a todos com sua vivacidade e sua simpática facúndia. Oiliam José, poeta, historiador e ensaísta, mais tarde eleito para a Academia Mineira de Letras, que ainda hoje abrilhanta, singularizava-se pela seriedade, pelo comportamento quase monástico, pela voz metálica, monocórdia, com que escandia meticulosamente as palavras. Dava-me a impressão de poder ler os pensamentos da turma, que acompanhava em silêncio as suas preleções. Extraordinária figura era, também, Lydio Machado Bandeira de Mello, que pouco depois deixaria Leopoldina para lecionar Direito em Belo Horizonte (foi professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais). Somam dezenas os volumes de sua obra científica, filosófica, jurídica, teológica, da qual destaco um título, que já naquela época mexia com a minha imaginação: Prova Matemática da Existência de Deus.

Esses, alguns dos mais ilustres membros do corpo docente. Fora do Colégio, porém, outras figuras nos atraíam: Haroldo Barreto, poeta boêmio, de comportamento sui generis, com seu violino (por vezes uma corda só...) e seus belos sonetos decassilábicos; René (filho da severa Prof.ª Regina Monteiro de Castro, que dava Francês e Desenho para o Científico e o Ginásio), com sua conversa inteligente e amiga, com sua companheira atenção para com nós outros, adolescentes famintos de Saber e de Beleza; Murilo Monteiro de Castro, seu irmão, mais arredio, afastado talvez por um halo misterioso de Poeta já feito... De Murilo, que haveria de morrer cedo, afogado, recebi eu certa vez, em seu gabinete odontológico, aonde acompanhava o amigo José Jeronymo Rivera, minuciosa lição sobre a cesura medial do alexandrino ortodoxo.

Essa constelação invulgar lampejava num firmamento iluminado, ainda e sempre, pela estrela magnífica de Augusto dos Anjos, que, professor também, na Cidade consumira o período último de sua vida. (Ignorávamos, então, que outro escritor de grande talento passara por lá, como aluno do Colégio: o tramontano Adolfo Correia da Rocha, que se imortalizaria com o pseudônimo de Miguel Torga.)

No quadro dessa constelação inscrevia-se, como estrela de primeira grandeza, o Dr. Geraldo de Vasconcellos Barcellos. Diplomado em Farmácia e Química por Ouro Preto, e em Direito por Niterói. Em Leopoldina e cidades vizinhas, afirmou-se como advogado criminalista. Como professor, conheceram-no, além do Colégio Leopoldinense, a Faculdade de Filosofia Santa Marcelina, de Muriaé, e estabelecimentos educacionais da antiga Vila Rica, de Mariana e de Valença, nos quais ministrou aulas de Latim, Português, Filologia, Literatura Luso-Brasileira, História, Geografia, Química, Biologia e Sociologia. Pertence à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e à Academia de Letras Marianense. Tem livros publicados de poesia e oratória. Muito mais numerosas, porém, são as obras inéditas, que abrangem esses gêneros, a Filologia, a Bioquímica, a Biologia e o Direito.

Em todas essas atividades tem brilhado o filho conspícuo de Alvinópolis. Mas para mim, pessoalmente, os dois aspectos mais vívidos da personalidade de Geraldo de Vasconcellos Barcellos são os de Poeta e Mestre de Poesia.

Não posso falar do Professor Barcellos sem falar um pouco de mim mesmo.

Aportei a Leopoldina com algumas tentativas falhadas de poema. Tendo começado apenas a estudar Versificação, não chegara a discernir entre sílaba gramatical e sílaba métrica. Em conseqüência, refugava os versos, ditados pelo ouvido, que minha trôpega escansão dizia heterossilábicos; mas era impossível não refugar, também, os que a incompetente contagem afirmava corretos mas o ouvido não podia acatar. Assim, refugiei-me, humilhado, numa prosa ritmada e rimada, de cujas poucas páginas nenhuma sobreviveu.

Nosso primeiro contacto, em classe, foi quase desastroso. Mal chegado aos quinze anos, franzino, tímido, olhando de baixo para cima aquele homem alto que me interrogava sobre questões de análise sintática, por pouco não provoco um fim-do-mundo ao propor um inocente se para sujeito... Felizmente, recuperei-me logo do tropeção na entrada. E, ao passarmos à poesia, bastaram umas poucas palavras do Mestre para esclarecer, de uma vez por todas, aquelas obscuras questões que me tolhiam o fluxo poético. Em breve, o seu conhecimento, o seu repertório, a sua volúpia verbal, que nos transmitia, valorizando com a voz grave e modulada cada verso, próprio ou alheio, que recitava, haveriam de se tornar uma fonte de encantamento poético e um estímulo às nossas nascentes veleidades.

Em torno do Mestre ¾creio que posso generalizar¾ gravitávamos eu e os outros estudantes que principiávamos a emplumar asas para o vôo poético: José Jeronymo e Deodato Rivera, Hélcio Campomizzi, Gustavo Monteiro de Castro Júnior, José Herberto Dias, meu colega de turma Sebastião Murilo Pereira de Oliveira, Romeu César Leite... (Vou lembrando os nomes e vendo, com saudade, que alguns já se foram para o outro lado... e que a maioria optou, afinal, por outros tipos de vôo, não menos respeitáveis.)

Falei do Mestre de Poesia. Quanto ao Poeta, cabe lembrar serem os seus metros de eleição o decassílabo e o alexandrino, este quase sempre de recorte clássico ¾o alexandrino francês tradicional¾, mas eventualmente na mais moderna modalidade trimembre, senão mesmo na de dodecassílabo sem acentuação definida. Pratica, entretanto, com igual desenvoltura os outros metros ¾ o hexassílabo, a redondilha, o eneassílabo, o hendecassílabo... Os temas parece-me serem, de preferência, o do amor humano ¾neste livro, particularmente, centrado na devoção à esposa querida, motivo de composições anteriores e posteriores ao seu passamento¾ e o do amor divino ¾ que é a tônica de Na Seara do Evangelho, publicado em Belo Horizonte, em 1959.

Da qualidade poética de seus versos dirá, melhor do que esta prosa rasa, a leitura dos poemas. Não me furtarei, contudo, a indicar minhas preferências. Neste Livro de Elza, considero cumeeiros os sonetos “Sinceridade”, “Mensagem-Convite a Minha Musa”, “Versos de Amor”, “Versos que te não Disse”, “Por entre Escombros” e “Rimas de Amor”.

A dois outros darei destaque especial: “Últimas Palavras” e “Dilema”.

O primeiro, que apresenta a singularidade de um quarteto estrambótico, perfeitamente harmonioso com os quatorze versos anteriores, é belo e pungente na evocação de palavras da Amada em seu leito de morte. Girando em redor dessas palavras, e encerrando com elas o estrambote e o soneto, dá o Poeta ao seu lamento a perenidade da poesia.

“Dilema” oferece um bom exemplo de alusão, com feliz reaproveitamento de versos alheios. Em seu final, conscientemente, o autor se inspira no do soneto “Fermoso Tejo meu”, de Francisco Rodrigues Lobo, em cujo último terceto diz o vate luso, fechando o confronto de si com o pátrio rio:

Mas lá virá a fresca primavera!Tu tornarás a ser quem eras de antes,Eu não sei se serei quem de antes era.

Esse verso final é citado na íntegra em “Dilema”, em que o nosso poeta indaga da possibilidade de permanência ou refazimento, no além, dos laços que o uniam à Amada neste mundo. Mas, como salienta Barcellos, com propriedade, em nota nos originais, o seu soneto “é de natureza escatológica, considerando o nosso último fim, no fim dos tempos, enquanto o do poeta lusitano não sai do tempo e do espaço”.

Para transcrever, aqui, exemplos de elevada inspiração e refinada fatura, prefiro, todavia, servir-me do esgotado Na Seara do Evangelho, deste modo reofertando ao leitor duas páginas esplêndidas da outra vertente do Poeta (e aproveito para sugerir o preparo de uma antologia que abranja, além destes livros, os inéditos).

A primeira dessas páginas é um soneto cujos plangentes tercetos evocam, sem contudo imitá-lo, o Alphonsus do Setenário das Dores de Nossa Senhora:



              IN DULCI JUBILO


Mês de Maria! Em religioso enleio
de rosas, lírios meu sonhar se enflora...
Meu coração fez-se de plumas cheio
para louvar-te, Mãe, Nossa Senhora!

A própria terra enternecida agora
hinos te eleva em doce devaneio.
Mês de Maria! A prece se afervora!
Maio tangendo as esperanças veio!

Tudo são festas! Tudo são laudares!
O céu de novas pompas se recama...
perfumes e orações andam nos ares!...

Mãe de Deus, Mãe dos homens, Mãe das dores,
olha: a minh’alma vai tornar-se flama
 na glorificação dos Teus louvores!....

A segunda, igualmente um soneto, em rigorosos alexandrinos de tom parnasiano-simbolista:


            A ASCENSÃO DO SENHOR
 
Nossa Senhora e os Onze, entre almas traiçoeiras,
ainda estão, ali, na infiel Jerusalém.
Manhã! Brilha a cidade, ao sol sob as seteiros
dos castelos, a olhar, arrependida, o Além.
 
Surge agora o Senhor! É nas asas ligeiras
da própria luz que Ele aparece, que Ele vem.
Vai ao monte subir... monte das Oliveiras!
Com Ele a própria Mãe os Onze vão também.
 
Ei-los, agora, enfim, ao topo da montanha.
Imprecisas, ao longe, as cruzes do Calvário,
tão clara e tanta é a luz que a tudo envolve e banha.
 
Fala aos Onze Jesus! Depois, de manso, lento,
Ei-lo a subir ao céu... Deslumbra-se o cenário...
Desfaz-se o Mestre em Luz, na Luz do Firmamento.



Façamos agora um pouco de silêncio, para a leitura deste livro. Mas, antes de encerrar estas linhas, não resisto ao íntimo apelo de retornar a 1950 e a Leopoldina, para ver-me de novo adolescente, cheio de entusiasmo e de esperanças, a aprender com o Professor Barcellos uma lição que seria para toda a vida.

Como poderia imaginar, aquele menino metido a poeta, que viria a merecer a honra de prefaciar um trabalho do Mestre?

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