terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Deodato Rivera: poesia, morte e ressurreição


Anderson Braga Horta
In: Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília.
Thesaurus / FAC, Brasília, 2003.

Nascemos muitas vezes. Há o nascimento biológico, o único certificado como tal pelos cartórios; mas há outros e outros, alguns mais intensos que o primeiro, já porque desses nos possamos lembrar, já por iniciarem-nos em vivências que, pertinentes à globalidade da vida, parecem maiores que esta, mais férvidas, mais densas, mais vibrantes. Na mineira cidade de Leopoldina tive o privilégio de nascer —juntamente com Deodato Rivera e mais uns poucos jovens inexpertos e ansiosos— para alguns aspectos novos e excitantes da vida. Para aqueles que se nos desvelam com a adolescência. E para a Poesia.

Preciso resistir ao impulso de falar de cada um dos amigos e companheiros de então. A lembrança deles encheria páginas calorosas de um livro de memórias; mas devo conter-me nos limites de uma apresentação — a do poeta Deodato Rivera, que vi nascer, que nasceu comigo, e com quem comungo na irmandade da Poesia. E da Amizade.

 Em Leopoldina, naquele ano remoto e santo de 1950, encontramo-nos, não só no sentido social, mas no sentido espiritual da palavra, um grupo de adolescentes que nos faríamos amigos fraternos, para além das circunstâncias de tempo e espaço. Desse grupo, os que haveria de aproximar, em breve, também a Poesia éramos eu, Deodato e seu irmão, José Jeronymo, Hélcio Campomizzi e, logo, José Herberto Dias. Hélcio —irmão de Campomizzi Filho, que se tornaria crítico literário— cursou o caminho da Odontologia e, em seguida, o da Medicina, deixando para trás a tentação do Poema. Morreu de repente, do coração. Está presente neste livro, num de seus poemas confessionais, memorialísticos, elegíacos, o "Chapeuzinho Vermelho" (de apelido que lhe botamos, nem sei bem já por quê); mas está presente sobretudo em nós, como o lembra Deodato numa carta em verso de 1976 (uma carta em verso, sim! que ainda então, no longo desterro, era capaz desse romantismo o Poeta, como era, em seus tempos ubaense-leopoldinenses, o próprio Hélcio). Diz o missivista, referindo-se à perspectiva de volta à Pátria (para o que, entretanto, ainda teria de esperar uns quatro anos):

     Para que dizer-te a dor de já saber
      que o nosso Campomizzi não virá
      ao certo bota-dentro já mais perto?
      Assim nos quer o fado, mas vençamos
      a dor com o sentimento da presença
      do amigo amado em nós jamais mortal.

Mas avancei demais. Voltemos a Minas. Em 1953, já iniciados, todos nós, nos primeiros mistérios poéticos (e noutros, paralelos, mais gozosos, talvez, mas também, com certeza, infinitamente mais pungitivos), reunimos nossas penas no Três de Junho, "órgão dos alunos do Colégio Leopoldinense", obra de Jeronymo e Deodato, respectivamente diretor e secretário, prestigiada por Monsenhor Guilherme de Oliveira, que dirigia o Colégio. Os dois irmãos colaboraram profusamente em prosa e verso. Outro tanto se diga de Gustavo Monteiro de Castro Júnior, desaparecido, como Campomizzi, antes de madura a hora. Do grupo, compareceram ainda Hélcio e Herberto, com uma prosa cada um, nos sete números, tirados todos naquele mesmo ano.

José Jeronymo Rivera —aluno excepcional, que passava com média final 10 em todas as matérias— exibia uma grave e forte vocação poética, cedo e injustificavelmente abandonada. Transcrevo-lhe um soneto (que diria de filiação anteriana) impresso no n.º 2, de 20 de maio:

                                                           MÃE

                                                                                              José Jeronymo Rivera

                                               Quando, em meio à tristeza desta vida,

                                               Eu me vejo sozinho e abandonado,

                                               Sentindo o coração pulsar cansado,

                                               — Mortas as ilusões, e a fé perdida;

                                               Quando, ansioso, procuro no passado,

                                               No ideal que sonhei — visão sentida,

                                               Um consolo à minha alma dolorida

                                               — Um pouco de carinho ao desgraçado,

                                               Vejo um vulto celeste e silencioso

                                               Chegar-se a mim, beijar-me a fronte exangue,

                                               Banhando-me de luz e suavidade...

                                               És tu, ó mãe querida, o anjo bondoso

                                               Que me secas as lágrimas de sangue

                                               A brotarem da fonte da saudade...

Deodato era também dos melhores alunos, embora sem a rigorosa performance do mano. Os primeiros versos que publicou no Três de Junho revelam o jovem já voltado para uma poesia pensamental, social. Do n.º 1, datado de 5 de maio:

     RESSURREIÇÃO

(Paráfrase de Bécquer)

Na tosca sala jaz emudecida

A velha harpa, majestosa outrora,

Que hoje, no pó dos anos esquecida,

Relembra, triste, o seu passado e chora...

E nela quantas notas dormem, quantos

Suaves sons lhe morrem ressentidos

Da longa ausência de u'a mão que cantos

Lhe venha haurir de lábios ressequidos!

E quanto gênio, eu penso então, no fundo

Das almas dorme, por não ter no mundo

A mão que o tire do marasmo atroz;

A voz que o faça, Lázaro, da campa

Sair sorrindo, em lhe afastando a tampa,

Ressuscitado, ouvindo Aquela voz!...

Perdoem-me os amigos que eu lhes exiba assim essas primícias. Se defeitos tiverem, — são primícias. E suas qualidades são patentes.

No n.º 5, de 20 de agosto, estrearia a tendência social numa tentativa de verso livre, o "Poema Utópico", de que extraio a conclusão:

Se todos os homens fossem fortes de caráter,

se todos fossem sábios,

se todos fossem bons,

então não haveria guerra, revoluções, conflitos.

Então os exércitos seriam desnecessários,

e os homens, felizes.

Então, o Mundo teria ganho a paz.

O último número (e aqui me lembra o famoso soneto de Augusto dos Anjos, de que a terra leopoldinense abriga os ossos...), de 25 de outubro, trará um poema filosófico, já em forma sensivelmente evoluída:

POEMA DO HOMEM SIMPLES


Olhai-o bem: aquele é o homem simples...

Reparai como segue a passos leves

com a leveza de sua consciência...

Anotai o seu ar despreocupado,

como quem não se importa com o futuro,

como quem do passado não se lembra.

Ele vive somente do que apalpam

suas mãos,

do que vêem seus olhos,

percebem seus sentidos.

O presente que vive é sua vida;

o passado são luzes apagadas,

o futuro uma porta ainda fechada

que se lhe há de abrir...

Olhai-o bem: aquele é o homem simples...

Seus ideais de amor coloca-os perto,

onde possa alcançá-los, e, feliz,

sorri dos versos tristes do poeta

incompreendido;

não povoam suas noites pesadelos;

seu amor se assemelha às águas mansas

de um lago sossegado,

onde a lua, boêmia das alturas,

vem se mirar como donzela ao espelho;

seu amor, como as águas desse lago,

é quieto e silencioso, humilde e bom;

sua história é a mais simples das histórias,

sua vida, sem louros e sem glórias,

é a vida de muitos neste mundo...

Olhai-o bem: aquele é o homem simples...

As transcrições mostram a coerência da trajetória vital de Deodato Rivera: a seriedade no estudo; a diversificação das leituras; a preocupação ética, acima, a meu ver, da estética. No jovem, já o homem. Falta apenas, ao quadro, a nota lírica. Para completá-lo, nada melhor que este belo soneto:


Volto ao convívio de tuas cartas... Leio

linha por linha, devagar, buscando

achar de novo a sensação que veio

quando, uma a uma, vinham-me chegando.

São mil ternuras, frases carinhosas,

abraços, sonhos, confissões, desejos...

(Esse perfume bom de puras rosas

lembra o perfume dos teus puros beijos...)

E descobrindo vou, maravilhado,

que tem diverso significado

cada sinal, cada palavra, tudo:

aqui, no ponto, houve um suspiro mudo...

Houve um sorriso, ali, naquele traço...

Quer dizer beijo este "saudoso abraço"...


Pronto. Estão aí os traços fundamentais do retrato do Poeta. E do ser humano que é Deodato Rivera. O mais —insonegável, é certo— é desdobramento previsível, seqüência, conseqüência. A partida fôra dada.

Assim como nascemos e renascemos, também morremos vezes várias, no curso de nossa vida terrena. Já ambos no Rio de Janeiro, Deodato e eu retomamos as paralelas de nosso trajeto: trabalhamos juntos na mesma companhia de seguros, fizemos o mesmo concurso para a Câmara dos Deputados, passando em colocações contíguas. Em breve, porém, as paralelas de novo se afastariam, dessa vez de maneira mais radical, e por longuíssimos anos. Deodato revelava desde cedo insopitável vocação sacerdotal, isto é, a necessidade de entrega a uma causa; causa que fosse a um tempo filosófica e humanitária, que outro caminho não comportaria as dimensões de sua formação e de seu temperamento. (Nesse caminho, negligenciou a Poesia.) Passada a euforia do governo JK, da construção de Brasília, vieram os problemas, e veio 1964, inaugurando o anticlímax trevoso da Redentora. Nosso agitador foi demitido por abandono de cargo, não obstante o parecer da comissão administrativa, que viu justa razão para sua ausência. Perseguido, refugiou-se na embaixada da Iugoslávia, onde ainda pudemos visitá-lo eu, seu irmão e amigos. Começava a longa morte do exílio.

Em terras estrangeiras, contudo, pôde o homem retemperar-se. Conheceu novos climas, novos costumes, outras culturas; estudou, lecionou; reviveu, enfim. E, passada uma década de andanças, ocorreu a ressurreição do poeta. Para que ele próprio o relate, transcrevo parcialmente carta que me enviou de Les Ulis, França, datada de 4 de agosto de 1979:

     Não lhes falei nada do livrão porque queria fazer surpresa. Agora que já sabem posso esticar-me um pouco. Juntei toda a obra poética desse "renascimento" de há cinco anos em dez livros bem marcados, e o resto que está em inglês talvez se organize num último livro cujo título já escolhi: Songs of Love and Peace. Dos dez nove são em português, e constituíram o livrão chamado Diaspoerança. O décimo, que consta de 12 poemas em espanhol, chama-se Canto a Chile en Sangre, do qual lhe estou enviando uma amostra tomada ao azar, não sendo o que mais aprecio. Condensa algo da experiência desse segundo exílio (o poema, não o livro todo que é produto da grande tragédia social e humana que nos foi dado assistir, infelizmente). Gosto demais desse décimo livro, apesar de mais panfletário e talvez mais ingênuo e otimista, apesar de tudo, que os outros. Mas como, segundo penso, foi ele — ou melhor, sua motivação, a náusea do banho de sangue fascista, o terror, a angústia por amigos, conhecidos, povo que admirávamos — que determinou o "renascimento" poético, a angustiada busca das raízes para reencontrar o desejo de vida e de amor quando a morte escandalosa e cruel de milhares de inocentes te fazem duvidar de tudo e até de ti mesmo, perdôo-lhe a natureza talvez menos poética e propositadamente didática de que imagino o bardo de Lajinha não gostará. (Se tudo correr bem mandarei cópia breve, depende de encontrar uma máquina copiadora amiga, pois os fundos de difusão estão a zero.)

      Diaspoerança é uma história complicada, assim uma espécie de vários poetas num só, apenas que com o mesmo nome para não imitar o nosso Pessoa. Na verdade há de tudo em temática, tonalidade, se me entende, e estilo. O que me animou a reunir tudo foi a opinião dos amigos a quem os poemas despretensiosos agradavam, como vocês aí em Brasília e algumas aves de passo que estimulavam a publicação. Quando classifiquei tudo por data percebi que a ordem temática saía por si mesma, havia uma clara evolução ou processo de transformação (não necessariamente para melhor, no caso cada "fase" correspondeu a uma importante etapa numa espécie de catarsis e redescoberta interior para libertar os fantasmas reprimidos há 4 décadas quase, melhor, ao longo de, pois aos primários agregaram-se alguns secundários duros de roer...). E olha o livrão pronto sozinho! Não deu outro trabalho que fazer uma dedicatória, um poema que se chama "Para Alice", bolar o título-síntese e pronto.
Na linha seguinte, dir-se-ia "ligeiramente desconfiado de que o poeta morreu"... de novo! Mas isso já não me preocupou; já sabia, então, que a vida é feita de mortes e ressurreições; e o poeta nunca morre de todo.

E o livro aqui está, enfim; com aproximadamente a mesma estrutura e os mesmos poemas, mudado o título.

Voltaria o amigo a escrever-me em 12 de setembro. Preparava-se para o regresso, que se daria no ano seguinte. Da emoção dessas vésperas dizem uns tercetos e um soneto que me enviou nessa carta; transcrevo-os, pois não foram incluídos no livro. Primeiro os tercetos:

                                               PASSAPORTAGEM


                                               O poeta a que sai?

                                               Em Paris buscar vai

                                               Documento feliz.

                                               O poeta o que tem?

                                               Tem saudades, no trem,

                                               De um longínquo país...

                                               O poeta o que quer?

                                               Quer gritar, chorar quer.

                                               Mas coragem, quem diz?

                                               O poeta o que faz?

                                               Faz de conta que em paz

                                               Vai de trem a Paris...

Agora o soneto (branco), em que sobressai a beleza do verso final:

  BRASIL
Amava-te e deixei-te por amor,

E mais amor nasceu no longo exílio.

Maior fora essa funda provação,

Maior amor trouxera-te oferente.

O lábaro que ostentas estrelado

Nas asas da saudade me seguia

E em mim mesmo brilhava, não perdido,

Porque comigo erravas pelo mundo.

Venci contigo míticos fantasmas,

Dragões imaginários derrotei,

Saltei barreiras e evitei escolhos.

E em noites de amargura, se chorava,

Consolo me trazias, pois sentia

Teus rios a escorrerem-me dos olhos...

Deodato Rivera, o homem e o poeta, está, pois, entre nós. A entranhada vocação sacerdotal a que aludi, ele a dirige, hoje, à causa da criança — que se confunde, a bem dizer, com a causa nacional.

Deixo nestas linhas, repito, apenas esboçados os traços essenciais do poeta e do homem. Há de sem dúvida ampliá-los e aprofundá-los a leitura e fruição dos poemas.

(1994)


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