Cadeira nº 7: OILIAM JOSÉ


 PALAVRAS ALUSIVAS A OILIAM JOSÉ

 Luiz de Melo Sobrinho

Um menino, entre outros, em doces folguedos, nos logradouros de Visconde do Rio Branco e Guiricema.
Um estudante de passagem marcante pelo Grupo Escolar Álvaro Giesta, em São Geraldo, pelo Ginásio de Viçosa e pelo Ginásio Rio Branco.
Um adolescente com participação ativa em grupo de escoteiros.
Um jovem, já estabilizado no cargo de Auxiliar de Coletoria Estadual.
Um Advogado, homo legis, de profícua atuação em causas difíceis.
Um Professor cujos alunos não precisavam estudar em casa. Aprendiam na aula. Bastava prestar atenção. E não havia como não prestar atenção.
Um Escritor polígrafo, com obras de significativo conteúdo em História, Historiografia, Biografia, Sociologia, Literatura, Etnologia, Política e Religião.
Um Chefe de Gabinete do Secretário de Estado de Segurança Pública.
Um redator de documentos do Governo do Estado durante vinte anos, merecendo a total confiança de cinco governadores em seqüência.
Um sintonizador raríssimo de magnífica experiência de vida e dominação do saber.
Um executor atento do lema jesuítico ad majorem Dei gloriam.
Um homem sábio.
Um homem santo.
Como homem santo, na casa dos filhos de Deus, é padrinho do meu filho.
Como homem sábio, nesta casa de cultura, é meu Patrono.

Quisera que me assistissem, em alto grau, com aplicabilidade imediata, no desempenho desta missão, inteligência e coração, poder de apreensão e de expressão, conhecimento e sensibilidade, segurança e determinação, humanismo e humanidade, laicismo e religiosidade para, num somatório participativo e harmônico destes predicados e potencialidades, atingir, captar, assimilar, formular e transmitir a inefável grandeza entesourada no vasto e profundo universo que constitui a personalidade do Prof. Oiliam. Detentor de tantos diplomas, medalhas, condecorações e merecedor de títulos de excelsa significação, só concedidos a raríssimos privilegiados, por pleno merecimento em conquista pessoal, para nós continua sendo, carinhosamente, Prof. Oiliam.
A filosofia que rege as Academias adota, entre medidas e normas, o hábito salutar de cada um de seus membros ter um patrono. Vislumbra-se, neste procedimento, um gesto de bom senso, um ato de sabedoria. Os caminhos que percorremos, não somos nós que traçamos. Outros passaram por eles e deixaram luzes acesas e sinais de orientação e segurança para os caminheiros pósteros. Ninguém é completo. Ninguém é autossuficiente. Daí a importância imprescindível do patrono, como fonte de inspiração, ponto de referência e parâmetro para a conduta do acadêmico. Cabe ao acadêmico escolher o seu patrono. Ocorre, geralmente, escolher-se um patrono já migratus ex vita. O meu não. Ele está entre nós. E mais vivo que todos nós.
Discorrer sobre a vida e obra, o fazer, o saber e o ser de um patrono já migratus ex vita pode gerar controvérsia ou polêmica. Ele não está presente para ouvir, receber e avaliar o que se diz a seu respeito. E o conhecimento que dele se tem atinge aspectos, fases, faces, momentos e efeitos de sua operosidade. Não abrange a plenitude do seu saber e do seu ser. E a possível polêmica ou controvérsia gerada poderia induzir à reprodução da história dos cinco cegos tentando definir ou conceituar um elefante.
Minha situação aqui se reveste de especial cuidado, porque meu patrono, o Prof. Oiliam, pode, pessoalmente, expressar seu inconformismo e desconforto. Todavia, uma sensação de subjetiva tranqüilidade me favorece. Ele não o fará. Grande sábio que é e extremamente discreto e profundamente religioso, o máximo que faria seria proceder como Cristo na cruz, dizendo: "Perdoai-lhe, Senhor. Ele não sabe o que diz".
Quem é o Prof. Oiliam? Diria que, no universo da humanidade, na constelação dos indivíduos que primam pela cultura, pela integridade, pela autenticidade, pela operosidade e pela consolidação da personalidade, o Prof. Oiliam é uma estrela de primeira grandeza. E o reconhecimento da validade desta asserção se materializa no fato de ele integrar efetivamente as seguintes instituições da elite da dominação do saber e da produção cultural.
·         Academia Mineira de Letras;
·         Academia Ubaense de Letras;
·         Academia Riobranquense de Letras;
·         Academia de Letras e Artes "Mater Salvatoris", de Salvador, Bahia;
·         Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais;
·         Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora;
·         Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo;
·         Instituto Histórico e Geográfico de Visconde do Rio Branco;
·         Instituto Genealógico Brasileiro;
·         Movimento Poético Nacional, São Paulo;
·         E, com sacrossanto orgulho e honra: Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.
O Prof. Oiliam ostenta admiravelmente a marca da simplicidade. Parece adotar, na conduta do dia a dia, esta passagem do livrinho intitulado Imitação de Cristo: "Depois de cumprir todas as suas obrigações, só lhe resta dizer: Sou um servo inútil. Fiz apenas o que deveria fazer". O seu modus vivendi é assim. Ele faz, ele produz, ele inspira, ele promove e nada cobra nem pede reconhecimento. Mas, a sagacidade de setores externos, no âmbito institucional, capta seu mérito e o consagra com premiações e condecorações. Assim, com justiça, recebeu as seguintes distinções:
·         Medalha de Bronze João Pinheiro, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais;
·         Medalha de Honra ao Mérito, do Setor de Literatura, de Visconde do Rio Branco;
·         Medalha de Prata Santos Dumont, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Medalha de Honra da Inconfidência, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Brasão Centenário do Duque de Caxias, Câmara Municipal e Lions Club, de Visconde do Rio Branco;
·         Medalha de Ouro Santos Dumont, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Grande Medalha da Inconfidência, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Medalha do Centenário do Palácio da Liberdade, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Secretário Geral Perpétuo da Academia Mineira de Letras;
·         Medalha Presidente Juscelino Kubistchek, em Diamantina, do Governo do Estado de Minas Gerais;
·         Medalha Israel Pinheiro, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais;
O espaço que o Prof. Oiliam ocupa, nas instituições a que pertence, e as distinções com que foi contemplado justificam-se pelo fato de ser ele um notável polígrafo de extrema eficiência e fecundidade, fazendo-se merecedor de ampla admiração e respeito. As sutilezas perceptíveis em suas obras recebem esclarecimento em Certeza e Temores, quando ele próprio afirma que "acima das belezas literárias, pairam soberanamente os valores morais".
Ad majora natus et factus, nascido e feito para coisas maiores, jamais se contenta com apenas o material tangível do espaço que o envolve. Busca sempre algo mais, o transcendente. Ele mesmo afirma que "para o verdadeiro poeta não basta o mundo que o cerca. Faltam-lhe continuamente novos elementos. Daí sua contínua evasão para o sonho e o encaminhamento para a verdade e para o eterno".
E, no seu afazer de polígrafo, inserindo coerência e harmonia entre seu modus vivendi e seu modus faciendi, o prof. Oiliam nos encanta e impressiona com trinta e um livros publicados e dois já prontos para publicação, a saber, Contribuições Civilizadoras Árabes e Procura de Caminhos.
E conta com várias dezenas de trabalhos publicados in:
·         Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais;
·         Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora;
·         Revista da Academia Mineira de Letras;
·         Revista Duc in Altum, da Faculdade Santa Marcelina, de Muriaé;
·         Perspectives on Brazilian History;
·         Revista Brasileira de Estudos Políticos;
·         Suplemento Literário do Minas Gerais;
·         Capítulo de Minas Gerais - Terra e Povo;
·         Uma dezena de Prefácios a obras de autores de expressão nacional;
·         Discursos na Academia Mineira de Letras;
Este conjunto de publicações oferece, em cerca de dez mil páginas, uma exuberante demonstração de fecundidade mental, abrangência de conhecimento e substancial conteúdo nutritivo para o espírito.
Pelas obras produzidas e conferências e discursos proferidos, percebe-se a vastidão e profundidade do seu conhecimento. Mas, algo mais há de se notar. Sobre dominar tão variada e consistente sapiência, ele apresenta o que quer, com plena clareza e precisão, num padrão superior de linguagem só possível a poucos privilegiados. Faz-se oportuno lembrar aqui uma afirmação de Julio César, autor de De Bello Gallico e Ditador de Roma: Ninguém pode se dizer patriota se não exercer pleno conhecimento da língua materna. E o Prof. Oiliam, no que se refere à linguagem, age soberano, como um peixe nas águas ou um pássaro no espaço aéreo.
Na defesa dos valores religiosos e morais, na esteira da intelectualidade e os condimentos da leveza, do encanto e da graça, sua eficiência torna-o um valioso pilar de sustentação da doutrina da Igreja, como o faz o respeitável Cândido Mendes, nos tempos atuais, assim como o fizeram, tempos atrás, Alceu Amoroso Lima, Leonel Franca e Jacques Maritain. Escrevendo sobre religiosidade, o substancial conteúdo apresentado satisfaz os apreciadores e estudiosos da Teologia Dogmática, da Teologia Moral e da Teologia Escatológica. A propósito da Teologia Escatológica, parece que o Prof. Oiliam, por instinto, intuição, premonição ou estigma de um predestinado, ensaiava, descontraidamente, os primeiros atos de pesquisas, as primeiras garimpagens nesta área tão fértil quanto tenebrosa, no alvorecer de sua infância, conforme narrado em Pensar do Cristão . pág. 31:
Eu tive a minha história infantil, que foi longa e curiosa. E minha maneira preferida de brincar se desenrolava na área do cemitério local abandonado, com seus túmulos em ruínas, no distrito onde passei boa parte da minha infância, Guiricema - Minas Gerais, hoje cidade. Funereamente vivi, portanto, as primícias de meu mundo de brincadeiras. Desse velho cemitério, fazia, portanto, com os meninos da minha idade, o local de infantis brinquedos. Tocava, saltava e buscava o fundo dos túmulos que ainda guardavam parte dos restos mortais de pessoas boas ou más, em antigo tempo. Não sabia a razão dessa preferência pelo local, o menos indicado para o desejado fim. Nem compreendia o verdadeiro significado da morte, como passagem do efêmero para o eterno. Mas o certo era que o local se mostrava preferido por mim.
Como Historiador, o Prof. Oiliam conta histórias que a História conta; mas conta também histórias que a História não conta. E o faz com densidade de conteúdo, abundância e riqueza de detalhes, mais a objetividade e a clareza de Viriato Correa, porém com mais encanto e leveza.
No que tange à Sociologia, passou-me pelas mãos e pelos olhos, tempos atrás, um livro intitulado "A formação das Almas". Este e outros do gênero têm seus méritos e atingem o alvo escolhido. Mas, o Prof. Oiliam, navegando nestas águas, dispõe de equipamentos que captam e revelam, além dos componentes biológicos e etnológicos, outros elementos e fenômenos, da natureza do Politikón Zóon de Platão, mas que fogem da visão e alcance de outros. Se o homem é um todo, mas formado de matéria e espírito, o Prof. Oiliam, como ninguém, sabe lidar com a matéria e valorizar a função do espírito. Ele trata, efetivamente, da formação das almas.
Seus poemas, impregnados de encanto e graça, parecem feitos por encomenda de Horácio, para exemplificar e justificar o que está em Arte Poética: Omne tulit punctum qui miscuit utile dulci, lectorem delectando pariterque monendo. E Boileau, em Art Poétique, um padrão da Literatura Clássica, teria formulado o mesmo pedido para objetivo idêntico: Que votre âme et vos moeurs, peintes dans vos ouvrages n'offrent jamais de vous que de nobles images.
E o prof. Oiliam atende a ambos, com a mesma precisão. No cumprimento da tarefa de Horácio, ele ganha todos os pontos, porque estabelece a união do útil ao agradável, enquanto deleita e instrui o leitor. Quanto à recomendação de Boileau, o leitor percebe facilmente que sua alma e seus costumes, presentes em suas obras, apresentam a nobreza da imagem e a magnanimidade do próprio autor.
Na fascinante elaboração de suas obras, ele aproxima o aqui circunstancial do homem da onipresença de Deus, o agora efêmero do homem da eternidade de Deus. Aproxima o humano do divino, para que se olhem, se admirem e se amem. Ele não apresenta a religião como um conjunto de dogmas, barreiras de separação e normas de uma nova realidade, mas como fonte inexaurível de amor, sensibilidade, entendimento e esperança. Ele sabe, como ninguém, acender a luz da verdade sobre o breu da tristeza, da desesperança e da impotência. Quando Cícero, em Tusculanas, após discorrer sobre os males que afetam a humanidade, afirma que o homem virtuoso está acima de tais contingências, ele parece antever a figura luminosa e altaneira e a consistência da estrutura mental e comportamental deste homem, sábio e santo, que paira e impera soberano acima de todas as operações restritivas, produzidas por inconsequência ou insensatez do próprio homem. Nietzzche insinua que, por trás da busca racional da verdade, mora o desejo da morte, do esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo. Para o Prof. Oiliam, sem essa de letalidade explicativa de tudo. Ele conhece o sentido da vida. Vive-a em plenitude, com a firmeza da fé com que se move, com a serena certeza com que caminha, com o inabalável conforto de uma aliança solidificada e perene com Aquele que assim se define: Ego sum via, veritas et vita. Para a religiosa francesa Elisabeth Lesseur, que vê o Mundo como um sistema de vasos comunicantes, uma alma que se eleva, com ela eleva o mundo. Neste contexto, o Prof. Oiliam, incontestavelmente, torna-se responsável pela produção e manutenção de obras e execução de atos salutares que sustentam o nível do bem que o mundo atingiu.
Para a afirmação do cientista Pasteur de que a pouca ciência afasta de Deus e a muita ciência aproxima de Deus e o conceito formulado pelo físico Armando Righeto segundo o qual "Deus é um limite que recua, na medida em que a ciência avança", e fora mal compreendido, o Prof. Oiliam tem explicação simples, objetiva e natural, quando diz, em Anseios de Fé e Esperança, que quanto mais se descobre e conclui, mais se sente que há fenômenos e leis por descobrir e conhecer. E ele palmilha, com serenidade e confiança, as trilhas que levam do finito ao infinito, da criatura ao Criador, da ciência à Onisciência.
Quando grava, em Certeza e Temores, que a inutilidade que acompanha certas vidas é a mais eficiente propaganda para as ideias dissolventes que procuram penetrar na sociedade do Ocidente, ele o faz como um peregrino a caminho de objetivos elevados. Prossegue observando os fatos e feitos revelados na paisagem humana. Como homem essencialmente de bem, em busca incessante do melhor, deve curtir amargo desconforto ao deparar com as mazelas que grassam na sociedade hodierna: onde o bom exemplo já não vem mais de cima para baixo; onde se dá destaque ao tesouro que o ladrão rouba e a traça corrói; onde se percebe o descompasso entre o avanço da ciência e a paz da humanidade, a convivência passiva entre as sondas espaciais e o massacre de civis na África; onde a permissividade se alastra sem contestação. Mas o Prof. Oiliam está acima destas contingências. A ele se aplica o que ele próprio escreveu em Certeza e Temores: "Depois de subir a montanha da santidade, a alma já não sente a necessidade de falar. Prefere contemplar a discursar. Prefere amar a dizer que ama". Preferência à parte, ele prossegue falando, contemplando, discursando, amando e dizendo que ama.
E é nesta posição confortável de um devotado peregrino da fé e da esperança que o Prof. Oiliam, pelo cultivo racional, sensato, cuidadoso e constante de sua inteligência e abafamento dos instintos perversos, adquiriu material suficiente, para construir, com o financiamento da fé e da esperança e supervisão e acompanhamento da sabedoria, o seu Palácio Encantado da Ventura. Diferente do Palácio Encantado da Ventura, de Antero de Quental, onde o Paladino do Amor só encontrou "silêncio e escuridão e nada mais".
No Palácio Encantado da Ventura, do Prof. Oiliam, em vez do silêncio, há sons, vozes, risos, canções; em vez de escuridão, há luminosidade, clarividência, entendimento, satisfação; em vez do nada mais, há tudo o mais de que precisa e a que aspira a alma do santo e a consciência do sábio. E é deste Palácio, diafanizado, com visibilidade circum-supra-infradirecional, que o Prof. Oiliam assiste às leviandades de um mundo que fala alto de coisas baixas, enquanto ele, sereno, seguro, vitorioso, fala baixo das coisas altas.


Discurso proferido pelo acadêmico
Luiz de Melo Sobrinho
no dia 23 de abril de 2009

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